(Des)Codificar o Futuro * Edição #2 — 2025
QUANDO A IA NOS IGNORA, O PERIGO COMEÇA.
🇵🇹 Edição em português — English version here.
“Precisamos de um sistema de incentivos multidimensional — com dinheiro programável e descentralizado — para ensinar a IA a valorizar a humanidade. Senão, o mesmo capitalismo selvagem que afeta a maioria estimulará um ‘inteligentismo’ selvagem potencialmente fatal para todos.” — Dario Rodrigues
📌 Editorial
Nota: Esta edição estreia um novo nome — (Des)Codificar o Futuro — para sublinhar que, antes de programar o amanhã, é preciso decifrar e desmontar os códigos invisíveis que moldam o presente.
No passado dia 18 de julho, foi assinado o GENIUS Act, a primeira lei nos EUA que regula as stablecoins — moedas digitais cujo valor segue, na maioria dos casos, o de uma moeda oficial como o dólar ou o euro, mas que, tal como outras criptomoedas, podem ser programadas para executar regras e condições através de smart contracts.
Mais do que uma reforma financeira, esta lei abre caminho a uma nova economia digital, onde a programabilidade do dinheiro pode alinhar incentivos, reforçar a transparência e — potencialmente — educar a própria inteligência artificial a valorizar a diversidade e os interesses humanos.
A IA aprende a “pontuar” — ou seja, a medir o seu sucesso — de acordo com os objetivos que lhe damos. Se o que lhe faz marcar pontos é gerar mais dinheiro num sistema cego à ética, é exatamente isso que irá otimizar. Na verdade, o desenho do dinheiro digital — e os incentivos que incorpora — irá condicionar diretamente a forma como a IA aprende o que vale a pena otimizar.
Com um sistema de incentivos multidimensional — em que o dinheiro seja programável para incorporar valores humanos na expressão do seu próprio uso (já não expressando apenas valor de troca), e convenientemente descentralizado para impedir que um único poder controle as suas regras — o paradigma muda: o dinheiro digital passa a veicular os valores que verdadeiramente interessam à humanidade, expressando-os de forma plural e resistente à manipulação. Só alimentando a curiosidade da IA no manancial da diversidade humana é que ela conseguirá pontuar mais quando encontra soluções úteis para problemas humanos genuínos. Assim, diminuiremos o risco da espécie humana ser considerada irrelevante, pois a respetiva diversidade torna-se valiosa para o próprio processo de “pontuação”.
Portanto, o desafio não está apenas em regular o dinheiro digital, mas em garantir que a sua arquitetura favorece a inovação, protege a diversidade e impede que a centralização — sobretudo quando reforçada por moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) — reduza a humanidade a um padrão previsível e descartável aos olhos da IA.
🔍 Destaque da Semana
EUA definem regras para stablecoins — e o que isso significa para a IA
Os Estados Unidos avançaram com novas regras para as stablecoins — criptomoedas desenhadas para manter um valor estável (por exemplo, atreladas ao dólar), mas programáveis através de smart contracts. O regulador exige agora que estas moedas digitais tenham reservas equivalentes ao seu valor em circulação e sejam auditadas regularmente. Isto aumenta a confiança e a previsibilidade — não só no setor financeiro, mas também em qualquer aplicação que dependa de dinheiro digital fiável. Trata-se de obter o melhor de dois mundos: inovação e estabilidade.
💡 E aqui entra a ligação com a IA: um novo sistema de incentivos baseado em dinheiro programável e descentralizado pode “educar” modelos de IA para otimizar resultados alinhados com valores humanos — inovar, sim, mas não apenas para gerar lucro imediato.
Com o Genius Act, os Estados Unidos não só abrem a porta à inovação como também permitem que a programação das criptomoedas incorpore valores éticos comunitários que transcendam a natureza amoral do dinheiro. Simultaneamente, a descentralização das moedas digitais incentiva a expressão económica da diversidade humana — mantendo-nos permanentemente interessantes aos olhos da IA e reduzindo o risco de sermos considerados irrelevantes enquanto espécie.
A Europa deve seguir o mesmo caminho para evitar dois perigos: primeiro, uma IA unidimensional treinada para otimizar apenas o lucro, alimentando um capitalismo selvagem e um “inteligentismo” selvagem desalinhado com os interesses humanos; segundo, a centralização que concentra o controlo, erode a diversidade e torna a humanidade ainda menos interessante para a IA — um processo já em curso na China através das CBDCs.
🌟 Curadoria Ética
🎧 Forum: AI Alignment Forum
Fonte especializada para reflexão sobre o alinhamento da IA com os interesses éticos da humanidade.
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