(Des)Codificar o Futuro — Nº 3
O Fim do Dinheiro Cego: O Bit-Bang de um Novo Universo Monetário
🇵🇹 Edição em português — English version here.
“Codificar é legislar. A diferença é que os algoritmos nem sempre passam pelo crivo democrático.” — Dario Rodrigues
Com o dinheiro atual, a inteligência artificial (IA) apenas aprenderá a maximizar o lucro. Ao descentralizar o dinheiro, podemos ensinar a IA a valorizar a humanidade.
Porque é bom reinventar o dinheiro
Vivemos uma era em que incêndios devastadores em Portugal, guerras pelo mundo e a difusão da desinformação expõem de forma crua os efeitos de incentivos económicos cegos — um sistema amoral de riqueza que recompensa tanto quem salva como quem destrói. Quase ausente do debate público, esse sistema, enraizado no próprio dinheiro, impôs silenciosamente uma lógica civilizacional redutora, despojando a sociedade da sua riqueza de valores e reduzindo-a a uma única medida de valia: o lucro.
Mas tudo pode mudar porque o dinheiro digital é programável. A criação de moedas digitais descentralizadas não inaugura apenas uma etapa financeira: abre um universo monetário multidimensional capaz de integrar valores para além do lucro imediato. Esse novo multiverso de moedas digitais oferece um caminho para alinhar economia e humanismo, sobretudo na era da inteligência artificial. Ao reinventar o dinheiro, também reprogramamos os incentivos que moldam a sociedade — e a própria IA.
O que é esse novo dinheiro
Dinheiro é confiança. As moedas digitais permitem que valores além do lucro financeiro sejam codificados em cada transação dessa confiança. Mais: o rigor matemático da criptografia garante que o processo se possa desenrolar sem depender de bancos centrais ou intermediários.
O GENIUS Act, aprovado nos Estados Unidos em julho de 2025, abriu a porta à descentralização do dinheiro digital — algo tecnicamente possível desde 2008, com o nascimento do Bitcoin, mas até aqui sem reconhecimento legal. Pela primeira vez, uma potência mundial criou um quadro jurídico que permite às criptomoedas e stablecoins incorporar valores éticos comunitários e superar o tão prejudicial caráter amoral do dinheiro.
🔗 Fact Sheet da Casa Branca
O Bitcoin foi a moeda digital pioneira
A tecnologia blockchain nasceu descentralizada e a primeira criptomoeda mostrou que é possível ter uma moeda digital segura, sem banco central a controlá-la. Desde então, milhares de projetos, baseados na blockchain, exploram formas de criar valor e verificar transações sem intermediários. Contudo, a maioria permaneceu meramente especulativa, orientada apenas para o lucro.
A razão é simples: a tecnologia evolui mais depressa do que a mentalidade, e as pessoas continuam presas ao raciocínio redutor do dinheiro unidimensional que desconhece outros valores para além do monetário.
É como inventar o avião e insistir em usá-lo como táxi terrestre que apenas rola na pista. O problema é que a pista está a terminar — e já não há tempo a perder para aprender a levantar voo.
Como o código gera confiança
Tal como as moedas digitais, o primeiro dinheiro da humanidade também era virtual. Muito antes das moedas, o dinheiro existia como confiança registada na memória coletiva, mantida através da tradição oral e da recordação humana. Esse sistema funcionava apenas em pequenos grupos — tribos e clãs — onde todos podiam acompanhar quem devia o quê a quem.
Só mais tarde, há cerca de 2.600 anos, surgiram as moedas metálicas na Lídia, fixando em metal o que até então tinha sido uma confiança baseada na memória, viável apenas em pequenas comunidades.
Esse passo expandiu o comércio, mas trouxe também uma transformação crucial: os Estados (e hoje, no caso do euro, o Banco Central Europeu) apropriaram-se do poder de emissão, extraindo senhoriagem e transferindo os custos de agência da confiança para a sociedade. O resultado foi o dinheiro cego, que recompensa indiferentemente a construção de uma escola ou a produção de uma arma.
📌 Nota explicativa
Senhoriagem: é o “lucro” obtido pela emissão de moeda. Se produzir uma nota de 50€ custa apenas alguns cêntimos, a diferença constitui receita para quem a emite. No caso da União Europeia, esse ganho é gerido pelo BCE, revertendo depois parcialmente para os bancos centrais nacionais e, indiretamente, para os Estados. Mas quando a emissão é excessiva, esse “lucro” traduz-se em inflação: o dinheiro perde valor, e as pessoas percebem que conseguem comprar cada vez menos com a mesma quantia.
Custos de agência: surgem quando quem gere o dinheiro (governos, bancos centrais, bancos comerciais) não atua totalmente alinhado com os interesses de quem usa o dinheiro (a sociedade). É o preço de termos intermediários a tomar decisões por nós.
📌 Metáfora popular
No caso da zona euro, não é um governo nacional que “cozinha o pão”, mas sim o forno central de Frankfurt (o BCE). Ainda assim, o efeito é o mesmo: os pães saem cada vez mais pequenos, e todos sentem que o mesmo dinheiro compra menos coisas.
👉 A diferença é que, neste sistema, o padeiro não é um vizinho que elegemos — é um padeiro distante, que decide em nome de todos, mas sem estar sujeito ao escrutínio democrático direto.
Conciliar negócios e paz
As Central Bank Digital Currencies (CBDCs), ou moedas digitais de banco central, representam a face mais centralizada do novo dinheiro programável e são um perigo para a autonomia individual. Donald Trump proibiu a emissão e circulação de CBDCs em toda a jurisdição norte-americana, travando a possibilidade de o dinheiro servir à concentração extrema do poder e à vigilância e controlo da população como acontece na China.
Ainda assim, a visão de Trump parece limitada ao “business as usual”: até agora, o seu envolvimento público ficou sobretudo associado à criação de memecoins, como a TrumpCoin, uma versão superficial e especulativa de criptomoedas para continuar apenas a “rolar na pista”.
Mas alguém irá levantar voo. Empreendedores como Emad Mostaque, com a sua proposta de uma “Internet Inteligente”, demonstram compreender a relevância mais profunda do novo universo do dinheiro para compatibilizar os negócios e a defesa de interesses humanos genuínos como a saúde e a paz.
🔗 Whitepaper — Intelligent Internet
As implicações éticas na era da IA
Se o dinheiro continuasse cego e amoral, a IA seria inevitavelmente treinada para maximizar apenas o lucro — transformando o “capitalismo selvagem” num “inteligentismo selvagem”, igualmente desalinhado com os interesses humanos. Felizmente, esse destino já não é possível: as moedas programáveis, pela sua agilidade e utilidade diferenciada, são intrinsecamente mais competitivas e acabarão por substituir o velho sistema. O verdadeiro risco está no seu desenho: se ficar nas mãos de grupos de interesse, o dinheiro digital reforçará privilégios e concentrará poder; se, pelo contrário, for guiado pela visão ética dos ecossistemas humanos, poderá alinhar prosperidade com dignidade — e negócios com paz. Encontramo-nos, pois, numa encruzilhada decisiva: entre modelos digitais fechados ou abertos.
Optar pela centralização significaria abdicar da diversidade, da transparência e da resiliência que a abertura proporciona. Neste caso, o dinheiro programável tornar-se-ia um instrumento de controlo ao serviço de interesses político-económicos restritos, e a própria IA seria moldada por incentivos imorais e desumanos. Quando a inteligência artificial se prepara para assumir o comando das operações (e quem duvida disso não está informado sobre uma questão que é crucial), esse desvio na programação do dinheiro digital seria fatal: sem a pluralidade de valores da sociedade, todos os incentivos económicos seriam reduzidos à ótica da eficiência. Mais grave ainda: ao perder a diversidade abundante que poderia nutrir a curiosidade da IA e sustentar a sua desejável inclinação para a verdade, a humanidade tornar-se-ia desinteressante. Privada dessa riqueza de dados, perspetivas e contradições, a lógica da IA reduzir-se-ia a um cálculo frio e monótono — e a espécie humana poderia ser considerada descartável, por já não oferecer razões económicas, éticas ou sequer cognitivas para a sua preservação.
A Europa: ainda não inteiramente adormecida?
Curiosamente, a aprovação do GENIUS Act nos Estados Unidos funcionou como despertador para Bruxelas. A União Europeia, que tantas vezes parece adormecida ou demasiado burocrática perante as disrupções tecnológicas, anunciou a aceleração dos planos para o euro digital — e, de forma surpreendente, abriu a porta a considerar tecnologias descentralizadas como Ethereum ou Solana que abrem as portas ao novo multiverso de moedas digitais.
Talvez a Europa não esteja inteiramente a dormir na forma. Se souber distinguir digitalização de centralização, poderá transformar aquilo que parecia um atraso em oportunidade histórica: ser a primeira grande potência monetária a integrar, de forma explícita, valores comunitários e infraestruturas abertas numa moeda digital global.
🔗 Financial Times — EU speeds up plans for digital euro
O apelo à ação
O desafio é claro: usar o dinheiro para conciliar prosperidade com dignidade, negócios com paz. O “bit-bang” do multiverso do dinheiro já começou; falta decidir se será apenas mais ruído especulativo ou um verdadeiro ponto de viragem para a humanidade.
Dario Rodrigues


