🧭 Newsletter #8 - (Des)Codificar o Futuro
A reta que sobe: a era da computação "infinita" (1939-2025)
🇵🇹 Edição Portuguesa — English version here.
“O código já não apenas executa ordens, escreve-as.”
Dario Rodrigues (2025)
A inteligência torna-se abundante. O valor é programável. E a confiança, automatizada.
Fonte da imagem: Kurzweil, Ray. (2024). Price-Performance of Computation, 1939-2024. The Kurzweil Library – SIN Charts. Disponível em: https://www.thekurzweillibrary.com/sin-charts . Acedido em 24 de Outubro de 2025.
1. O preço de pensar
Desde 1939, o custo da computação caiu mais de mil milhões de vezes.
O gráfico é claro: em escala logarítmica, é uma reta que sobe — e nunca parou.
A cada nova geração de chips, o preço do processamento de informação desce, a capacidade cresce e a procura expande-se.
É a velha lei da oferta e da procura: quanto mais acessível a computação se torna, mais dela precisamos.
Daí a corrida global pelos datacenters — gigantescos reservatórios de energia cognitiva que alimentam a Inteligência Artificial.
Mas há um ponto decisivo que nem sempre se percebe à primeira vista: quanto mais inteligência artificial estiver disponível, menos custará produzir cada nova unidade, e o preço de gerar mais pensamento e trabalho cairá praticamente a zero.
Primeiro, desaparece o custo do trabalho intelectual — o repetitivo e o não repetitivo, o técnico e o criativo.
Depois, a robotização tornará quase gratuito o esforço físico — primeiro o trabalho padronizado e, em seguida, o restante.
À medida que a automatização vai eliminando a escassez do trabalho, o seu valor económico desce a pique. É o preço da abundância…
Como sabemos, a força bruta da computação é considerada indispensável para sustentar a infraestrutura da inteligência artificial — treinar modelos, processar dados, alimentar redes globais de decisão. No entanto, tal força bruta não é suficiente para gerar valor, sentido ou confiança.
O que passa a ser crucial é a direção desse cálculo tornado abundante, o sentido do processamento inteligente distribuído e a finalidade do conhecimento partilhado.
2. Da energia ao valor
Quando a capacidade de pensar com as máquinas se torna praticamente gratuita, o esforço associado ao trabalho assim realizado deixa de ser um recurso escasso.
E, em economia, tudo o que deixa de ser escasso perde valor.
Por isso, o que passa a servir para medir valor já não é o esforço que algo traduz ou acarreta, mas o resultado útil que daí advém — a utilidade, o impacto, o benefício.
Um texto pode levar horas a ser escrito por uma pessoa ou segundos a ser gerado por uma IA; a medição do seu valor deixará de depender do trabalho despendido e do tempo gasto nessa produção e terá, sim, a ver com a relevância daquilo que é comunicado.
É aqui que entra o novo dinheiro digital: stablecoins, tokens e contratos inteligentes.
Estes sistemas descentralizados ligam o poder da computação à verificação de benefícios comunitários, convertendo energia e informação em confiança económica.
Deste modo, as criptomoedas deixam de ser apenas meios de pagamento: tornam-se instrumentos de validação, capazes de comprovar que algo aconteceu — e valerão na medida em que esse algo trouxer valor real às comunidades que as utilizam.
Para compreender isto, convém perceber o que são contratos inteligentes. Estes são a ponte entre a inteligência artificial que decide e a tecnologia blockchain que garante.
São programas automáticos que executam acordos quando as condições reais previstas nas suas cláusulas são cumpridas, catalisando a confiança humana graças a código verificável. É essa garantia de autoexecução que suscita confiança distribuída!
Por exemplo, as criptomoedas podem pagar a um agricultor assim que o sensor confirma a colheita entregue, compensar um projeto ambiental quando os dados atestam a redução das emissões de carbono, ou liquidar um seguro automóvel no momento em que o veículo é detectado como imobilizado após um acidente.
Também podem remunerar um artista sempre que a sua obra digital é ouvida ou visualizada, transferir fundos de investigação quando os resultados de um estudo são validados por pares, ou emitir automaticamente certificados de aprendizagem após a conclusão de um curso online com aproveitamento comprovado.
Em contextos éticos mais sensíveis, podem financiar cuidados de saúde apenas quando indicadores clínicos confirmam melhorias, distribuir ajuda humanitária somente a quem se encontra efetivamente em zonas de crise ou, ainda, garantir micropagamentos educativos a alunos de regiões vulneráveis que completam metas de aprendizagem.
Até na logística global, as criptomoedas podem libertar o pagamento do transporte e da armazenagem de mercadorias assim que a entrega é confirmada por GPS e a respetiva qualidade é atestada por sensores independentes (e.g., termómetros).
Em termos simples, a IA produz conhecimento e a blockchain garante confiança.
Juntas, criam uma nova economia da verificação, a criptoeconomia, em que o valor não nasce do esforço nem da escassez de recursos, mas do benefício comprovado.
3. 💧 O velho paradoxo do valor
Adam Smith chamou-lhe o paradoxo da água e do diamante:
a água é essencial à vida, mas vale pouco;
o diamante é supérfluo, mas vale muito.
Durante o século XX e no início do século XXI, a economia digital repetiu o mesmo dilema.
O conhecimento — abundante e vital — valeu menos do que suscitar a atenção.
O valor de troca passou a residir em dados, cliques e anúncios.
Esta monetização da atenção teve um custo oculto: transformou a polarização num modelo de negócio. Vincar segmentos de mercado pode traduzir-se em mais cliques por anúncio, mas, ao premiar o choque, o extremar de posições e a indignação, as plataformas digitais acabaram por fragmentar a esfera pública e degradar a própria base da confiança democrática…
Agora, felizmente, o paradigma pode começar a inverter-se. Com IA, dinheiro digital descentralizado e contratos inteligentes, torna-se possível medir e recompensar o valor de uso real, isto é, o benefício que algo gera, o impacto positivo que produz e o sentido que acrescenta.
A utilidade deixa de ser invisível: o valor deixa de ser uma promessa e passa a ser medido pelo efeito verificável que produz nas comunidades onde circula — como um crédito de carbono que só vale se a floresta comprovadamente existir, ou um token energético que só mantém valor se iluminar realmente a vida comunitária.
“O diamante digital do futuro não será o dado raro, mas o brilhantismo do seu benefício.”
4. A consequência ética
Quando o custo de pensar tende para zero, a moral torna-se a nova escassez.
O valor de troca de um produto ou serviço deixa de ser determinado apenas pelo preço, passando a ter um significado reconhecido como ético, nomeadamente pelo valor de uso verificado nas comunidades que o transacionam.
O advento de uma economia de benefícios comprováveis — em que o valor nasce do bem que se verifica, e não do esforço que se esgota — traduz um paradigma em que o trabalho dá lugar ao propósito e o cálculo é formulado pela consciência comunitária.
A proliferação de datacenters só terá sentido se a energia que consomem regressar ao mundo em forma de conhecimento, utilidade e bem-estar.
Porque o desafio não é calcular mais, e sim compreender melhor — para conferir à energia que move a inteligência artificial um propósito verdadeiramente humano.
🪶 Menos energia por ideia. Mais sentido por watt.
Dario Rodrigues


