Newsletter No. 5 — (Des)Codificar o Futuro
Quando a Europa percebe que está em atraso: AI Act, gigafábricas e o fim do capitalismo tal como o conhecemos.
🇵🇹 Edição em português — English version here.
“Codificar é legislar. A diferença é que os algoritmos nem sempre passam pelo crivo democrático.” — Dario Rodrigues
Mario Draghi alerta: a União Europeia criou apenas três modelos de IA de larga escala no último ano, enquanto os EUA produziram 40 e a China 15 — é tempo de redesenhar o contrato social, o capital e o valor.
Segundo Mario Draghi, a União Europeia está “a ficar para trás” na corrida pela competitividade, crescimento e inovação, devido a atrasos institucionais, regulatórios e à falta de investimento estratégico. No último ano, os EUA lançaram cerca de 40 modelos de IA de grande escala, a China 15 — e a Europa apenas três.
Este dado é mais do que estatístico: é sintoma de que, se continuarmos a medir o progresso com o indicador PIB, ignoraremos a verdadeira revolução em curso.
Estamos numa transição acelerada. A inteligência artificial está a desmontar as bases do sistema que conhecemos:
PIB como métrica central,
Emprego como fonte de identidade e propósito,
Capitalismo baseado no trabalho humano.
Aqui ficam cinco pontos para (re)pensarmos o futuro:
1. Capital sem trabalho humano
A IA escala o trabalho intelectual quase sem limites. Quando agentes inteligentes conseguem superar humanos em tarefas cognitivas, o capital deixa de precisar do trabalho humano para se multiplicar. Robôs estenderão esta lógica ao trabalho braçal.
2. O PIB já não basta
O Produto Interno Bruto continua a ser o indicador de referência, mas já não capta o essencial: inovação, redes de confiança e capacidade de adaptação. Pior: mede o desenvolvimento humano de forma distorcida. Um surto de cancro ou a produção de armamento fazem o PIB subir mais do que a prevenção de doenças ou a paz...
Precisamos de métricas que reflitam não só o que produzimos, mas também o que sabemos, como cooperamos e como resistimos a crises.
3. Contrato social em mutação
O emprego garante não só rendimento, mas também identidade e comunidade. Quando desaparece, gera vazio social: por exemplo, pessoas com problemas de saúde mental têm taxas de desemprego cerca de 85% superiores às demais (OCDE), e as queixas económicas generalizadas (incluindo desemprego) influenciam a decisão de envolvimento em protestos, especialmente em contextos em que a desigualdade ou instabilidade institucional são fortes (SAGE).
4. Lucros em queda, base fiscal em erosão
O UBI (Rendimento Básico Universal) consiste em atribuir a todos os cidadãos um rendimento fixo, independentemente de trabalharem ou não.
Num cálculo simples: se a União Europeia (cerca de 300 milhões de adultos) atribuísse 1.000 euros por mês a cada adulto, o custo anual seria de aproximadamente 3,6 biliões de euros.
👉 Isto é mais de dez vezes o orçamento anual da UE (c. 200 mil milhões de euros, fonte: Comissão Europeia).
Ou seja: um UBI financiado apenas com impostos tradicionais é inviável.
5. Descentralização como via estratégica
Se a inteligência artificial ficar nas mãos de poucos, a concentração de poder será inevitável. Mas há alternativas:
Moedas digitais programáveis, que permitem financiar projetos comunitários de forma direta e transparente (exemplo: Celo).
Blockchain aplicada à energia, possibilitando a troca descentralizada de excedentes solares entre vizinhos (exemplo: Power Ledger).
Registos de autenticidade, compatíveis com blockchain no seu armazenamento e distribuição, que validam conteúdos digitais na sua origem e permitem combater a desinformação. O caso do C2PA / Content Credentials mostra bem esta lógica: é hoje um sistema federado de assinaturas digitais, ancorável em blockchains ou identidades descentralizadas para garantir maior transparência e imutabilidade.
Estes exemplos mostram que descentralizar é tornar o poder mais distribuído, rastreável e democrático, abrindo espaço para uma economia mais justa e resistente.
Reflexão final
A Europa reconhece o atraso, mas responde sobretudo com regulação preventiva, como o AI Act, o primeiro regulamento europeu para a IA. Trata-se de um quadro jurídico pioneiro, baseado em riscos, transparência e proibições de usos inaceitáveis. Contudo, corre o risco de sufocar a inovação e reforçar a dependência da Europa em relação a gigantes externos.
Nos EUA, pelo contrário, o GENIUS Act procura criar condições claras para fazer do novo dinheiro digital descentralizado (e.g., criptomoedas) um instrumento financeiro legítimo, abrindo a porta a soluções político-económicas inovadoras.
A comparação é clara:
AI Act (UE): regula, classifica riscos, cria obrigações.
GENIUS Act (EUA): abre espaço regulado para inovação descentralizada.
👉 Ou seja, a União Europeia ainda olha para a IA como risco a controlar, enquanto os EUA começam a olhar para o digital descentralizado como oportunidade a escalar.
É neste dilema — entre contenção regulatória e impulso descentralizador — que se joga o futuro da competitividade europeia.
No próximo número, abordaremos a proposta da Internet Inteligente, apresentada por Emad Mostaque, como visão estratégica para uma infraestrutura descentralizada e ética capaz de alinhar inteligência artificial, economia e valores humanos.


