O chip, a bola e o euro digital
Uma lição sobre confiança na era da inteligência artificial
Na madrugada de 3 de julho, aos 90+13 minutos do Portugal-Croácia, Josko Gvardiol empatou o jogo e levou-o para o prolongamento. Durou segundos. Dentro da Trionda, a bola oficial deste Mundial, há um chip que realiza quinhentas leituras por segundo. Esse chip tinha registado um toque de Igor Matanovic impercetível a olho nu. Fixado o instante exato do toque, o resto foi geometria: o fora de jogo semiautomático (o sistema que cruza o sinal do chip com as câmaras que seguem os jogadores) confirmou a posição irregular e o golo caiu.
O mais notável veio depois. Matanovic, o alegado prejudicado, desfez ele próprio as dúvidas: sentiu um contacto no cabelo, perguntou ao árbitro e este explicou-lhe que o chip tinha detetado o toque. Penteou a bola, literalmente. E aceitou o veredicto.
E se a decisão fosse exclusivamente humana? Recuemos vinte anos. Um fiscal de linha ergue a bandeira ou não, com base no que julgou ver a quarenta metros de distância. O lance discutir-se-ia durante décadas, cada adepto com a sua verdade, cada país com a sua teoria. É assim que nascem os rancores que sobrevivem aos resultados.
A confiança pessoal funciona à escala da aldeia: conhecemo-nos; a reputação vigia. À escala do mundo, entre estranhos e, cada vez mais, entre máquinas que decidem em milissegundos, só a confiança verificável eletronicamente impede que os adversários se tornem inimigos. A diferença importa: o adversário disputa o resultado dentro de regras que aceita; o inimigo disputa a legitimidade das próprias regras. Sem verificação partilhada, toda a derrota fermenta em suspeita, e a suspeita fabrica inimigos.
Mas falta uma coisa ao sensor da bola: transparência. A FIFA, pressentindo a polémica, publicou nas redes sociais o gráfico do toque. Gesto simpático, e insuficiente: o gráfico foi produzido pela FIFA, a partir de dados que só a FIFA detém, medidos por um aparelho que só a FIFA audita. É um “confiem em mim” com melhor grafismo.
No futebol, parece suficiente. No entanto, no novo mundo da inteligência artificial, a verificação tem de trabalhar à vista de toda a gente, num registo público (cifrado sempre que o assunto exija privacidade) que mostre a verdade factual a todos, como acontece na rede Bitcoin através da blockchain: um livro de registos replicado por milhares de computadores independentes, que ninguém consegue reescrever sozinho. Essa é a máquina da verdade resistente à captura.
Resistente, mas com uma condição, e convém dizê-la antes que outros, fora do mundo livre, a digam por nós. Um registo público resolve a captura no fim da linha: depois de inscrito, o veredicto não pode ser apagado, alterado nem escondido. Mas não resolve a captura na origem: se o sensor mentir, o registo eterniza a mentira. É o chamado “problema do oráculo”: quem garante, logo à partida, que aquilo que entra na máquina da verdade é, de facto, verdade? No futebol, a resposta técnica existe: o próprio sensor assina digitalmente os dados no momento em que os mede (um selo inviolável de origem) e vários sensores, de fabricantes independentes, medem o mesmo lance, para que a fraude de um seja denunciada pelos outros.
E é aqui que o dinheiro se revela o caso perfeito. No dinheiro, o problema do oráculo desaparece: a transação é, simultaneamente, o facto e o registo do facto. Não há sensor entre a realidade e o livro de registos, pois a realidade acontece no próprio livro que contabiliza as transações. O futebol precisa de oráculos; o Bitcoin não.
Por isso, o teste político do sensor que equipa a bola deste campeonato do mundo de futebol é também o teste da moeda que está na forja do Banco Central Europeu, o euro digital. E aqui o rigor é tudo, porque a questão não é a forma digital do dinheiro: é quem o programa. Um euro digital em que o emissor programa a moeda (onde pode ser gasta, até quando, em que produtos) é um instrumento de captura: o diretório de Bruxelas passa a decidir por nós. Um euro digital neutro, em que a programabilidade está nas mãos do utilizador (sou eu que estabeleço as condições dos meus pagamentos), é exatamente o contrário: liberdade contratual levada à máquina. Os “smart contracts” (contratos autoexecutáveis compatíveis com as moedas digitais e que as tornam programáveis) são liberalismo institucionalizado, não a sua negação.
O critério é sempre o mesmo, e proponho-o como teste universal: qualquer sistema de verificação que possa ser capturado por quem o administra, sem que ninguém dê por isso, está mal desenhado. Não digo que a FIFA capturou o sensor em Toronto; acredito que Matanovic penteou mesmo a bola, e ele próprio o confirmou. Digo que o ponto de captura lá está à espera. Quem controla a verdade do jogo sem escrutínio controla o jogo; e quem controla o jogo, mais tarde ou mais cedo, captura-o face aos incentivos económicos, isto é, monetiza-o. Nesse dia, até poderemos ter “pausas de hidratação” a cada cinco minutos, com publicidade a condizer.
O futebol explica, em 90 minutos, o que os relatórios do BCE não explicam em 900 páginas.




Gosto muito do analogismo que realizou, e que coloca sempre a dúvida das decisões modernas. Algo que manifesto certo é que o nosso moderno mundo digital tem muitas falhas e credibilidades que toda a gente acredita logo em directo. Todo o processo de demonstração que mencionou coloca de certo modo a dúvida da decisão tomada mas vem sempre uma mão humana demonstrar que esta é certificada. Será ?
Se a ciência fosse certa nada seria necessária mas se houver interferência de IA a dúvida subsiste.
As dúvidas subsistem para alguns,essa é que é a verdade. Para outros está tudo bem e é normal.
E a nossa realidade Dario. Abr