O julgamento que importa: a quarta opção que não existe
Sobre Musk, OpenAI, dinheiro escalar, stablecoins e o regresso da multidimensionalidade perdida há 2.600 anos.
1. Porque volto a este tema
Há dias, fui ao canal NOW para comentar o caso no tribunal entre Elon Musk e a OpenAI. Sete ou oito minutos não bastam para um tema desta densidade, e por isso fiz depois um vídeo de aprofundamento, com cerca de vinte e cinco minutos, no qual me alonguei sobre a tese central. Este texto é a camada seguinte. Cobre o que o vídeo deixou implícito, responde à objeção mais previsível (a que diz que, mesmo construindo novas formas de dinheiro, basta uma exchange e tudo regressa ao mesmo ponto) e introduz duas peças que o vídeo não abordou: o papel das stablecoins e o regime regulatório que está a emergir nos Estados Unidos.
A tese que defendo aqui não é sobre quem traiu quem. Não tem a ver com Sam Altman como pessoa, nem com Musk como denunciante. Tem que ver com o desenho dos incentivos económicos a que estas organizações estão sujeitas, e com a pergunta que esse desenho torna inescapável: pode uma missão sem fins lucrativos sobreviver dentro de uma arquitetura que mede o sucesso em escalas que ela própria não consegue captar?
A minha resposta é que não. O caso OpenAI prova isso de forma exemplar, por uma inevitabilidade estrutural.
2. A pergunta institucional
A OpenAI nasceu em 2015 como uma fundação. O propósito declarado era desenvolver inteligência artificial alinhada aos interesses humanos, em benefício da humanidade, sem os constrangimentos financeiros associados ao retorno esperado pelos investidores. Elon Musk foi cofundador, com várias dezenas de milhões de dólares no momento da fundação.
Anos depois, a fundação transformou-se numa Corporate for Public Benefit, uma figura jurídica norte-americana que combina lucro e missão social. A Microsoft fez um investimento massivo. Hoje, a entidade vale qualquer coisa em torno de oitocentos e cinquenta mil milhões de dólares. Quase um milhão de milhões. Ordens de grandeza completamente diferentes daquelas em que a fundação foi originalmente criada.
Musk acusa Altman de ter traído a missão original. Altman defende-se, argumentando que, sem essa transformação, não teria sido possível desenvolver a tecnologia. Quem tem razão, juridicamente, só o tribunal poderá decidir, e nem sequer é isso que me ocupa. A pergunta que importa é outra, e escapa às instâncias judiciais de qualquer tribunal.
A pergunta é se a missão original poderia ter sobrevivido (independentemente da boa-fé das pessoas envolvidas) quando a arquitetura de incentivos económicos pressiona qualquer organização, por mais bem-intencionada que seja, a maximizar o número que o sistema consegue medir. Esse número, hoje, é o lucro.
Quando digo que “o cheque substituiu a missão”, não estou a fazer juízo de valor sobre a intencionalidade de Sam Altman ou de alguém que trabalhe na OpenAI. Estou a fazer um diagnóstico estrutural. É algo bastante diferente. O que está em causa é o que o sistema mede e, sobretudo, o que o sistema, por desenho, não consegue sequer ver.
3. O dinheiro como escalar: uma genealogia da amputação
Para perceber o que está em causa, é preciso recuar.
O dinheiro, tal como hoje o conhecemos, é unidimensional. É o que os economistas chamam de “escalar”: um número que mede uma única coisa, a quantidade. Não mede proveniência, não mede condições, não mede consequências. Um euro ganho a vender pão é tratado pelo sistema como rigorosamente equivalente a um euro ganho a vender armas. Ambos somam um.
Não foi sempre assim. Para a maior parte da história humana (bem mais de noventa por cento dela), as transações funcionaram segundo um sistema completamente diferente, multidimensional por natureza. Era o livro-razão mental, o registo partilhado entre os membros de agrupamentos humanos pequenos (clãs e tribos) sobre quem devia o quê a quem, em que circunstâncias, com que peso e com que história. Esse dinheiro primordial não era um mero escalar; era de natureza vetorial e cada transação carregava várias dimensões simultaneamente.
O antropólogo Robin Dunbar identificou que a confiança necessária para esse tipo de registo se mantém até cerca de cento e cinquenta pessoas. Acima desse número (“Número de Dunbar”), deixa de haver memória partilhada suficiente para sustentar a confiança que tal registo exige. Mas até aí, durante muitos milénios, foi assim que se transacionou; sem moeda física e com o “livro-razão” desse registo contábil dentro das cabeças dos participantes.
Há um caso que ilustra isto de forma quase pedagógica: o sistema monetário que vigorou nas ilhas de Yap, na Micronésia, até épocas históricas relativamente recentes. Lá, a moeda consistia em pedras circulares enormes, algumas com mais de um metro de diâmetro e com peso que podia chegar a toneladas. Não circulavam fisicamente, pois eram demasiado pesadas. Mudavam de dono na memória da comunidade. Toda a gente sabia, a cada momento, quem era o proprietário de cada pedra. A pedra mais valiosa do arquipélago, conta-se, está há gerações no fundo do mar, depois de ter caído de uma canoa. Continua a pertencer a uma família, e essa família continua rica. O valor não estava na pedra. Estava no livro-razão coletivo, no qual a pedra era apenas um símbolo material. Esse registo contabilístico mental acompanhou a humanidade durante dezenas de milhares de anos.
Tudo isto mudou em Lídia, na atual Turquia, há cerca de dois mil e seiscentos anos. Foi aí que surgiram as primeiras moedas cunhadas com valor padronizado, uma solução técnica genial para um problema concreto: como fazer transações entre desconhecidos, fora do raio confiável estimado por Dunbar de cento e cinquenta pessoas. Por outras palavras, cunhou-se a solução para transacionar sem necessidade de um livro-razão partilhado mentalmente. A moeda permitiu negócios entre desconhecidos, à distância. Permitiu cidades. Permitiu impérios.
Mas a fatura foi grande. Ao concentrar o valor de uma transação num único número que viaja com o objeto, a moeda amputou tudo o resto. Proveniência, condições, consequências, tudo o que cabia no livro-razão mental; tudo isso passou a estar fora da unidade de troca. Foi um abandono da dimensionalidade para fins de portabilidade. Brilhante para o seu tempo. Mas foi uma escolha técnica, não um destino civilizacional.
Adam Smith, o teórico fundador do liberalismo económico, sabia disto. Toda a gente cita a Riqueza das Nações e a metáfora da “mão invisível” do mercado. Quase ninguém lê o seu outro livro, a Teoria dos Sentimentos Morais, em que Smith insiste que existe uma mão ética visível que tem de dar a mão à mão invisível. Para Smith, os dois livros eram um só. A canonização do liberalismo no século vinte separou-os, e ficámos a operar com a mão invisível como se ela fosse autossuficiente. Foi uma mutilação.
Essa mutilação só é gerível (ainda assim, com muito sofrimento à mistura) enquanto quem opera com o dinheiro for humano. Isso, como veremos, importa decisivamente.
4. O retorno da multidimensionalidade: DLT, à escala global
O ponto importante é que esta amputação não é definitiva. A tecnologia hoje disponível permite restaurar a multidimensionalidade do dinheiro a uma escala que nem Dunbar nem Yap imaginariam.
Refiro-me às tecnologias de registo distribuído, conhecidas pela sigla DLT, do inglês Distributed Ledger Technology. São sistemas em que o livro-razão deixa de estar guardado num único lugar (um banco central, uma autoridade tributária, um servidor empresarial) e passa a estar replicado e verificado por uma rede ampla de participantes, em condições que nenhum deles, individualmente, controla. A forma mais conhecida desta tecnologia é a pioneira blockchain, mas o princípio é mais geral.
A consequência, para o argumento que aqui defendo, é simples, mas decisiva: torna-se possível criar tokens (unidades digitais de valor) que transportam informação sobre a sua própria proveniência, as condições de uso e as externalidades associadas. Em vez de ser apagado pelo número, o contexto acompanha a unidade transacional. Tornam-se também possíveis os chamados smart contracts, ou contratos inteligentes, cujas cláusulas são executadas automaticamente quando determinadas condições se verificam, sem necessidade de intervenção humana ou judicial caso a caso.
Por outras palavras, podemos hoje construir formas de dinheiro mais próximas do livro-razão de Yap do que da moeda que herdámos de Lídia. Mas com uma diferença decisiva: as DLT libertam o dinheiro multidimensional do limite imposto pelo número de Dunbar e permitem-lhe operar em escala planetária.
Não é dinheiro novo. É um regresso. A diferença é que é digital, programável e global.
5. A objeção da exchange e a resposta dos ecossistemas
Aqui surge a objeção mais forte que esta tese costuma receber, e é justo enfrentá-la diretamente.
A objeção é a seguinte: imaginemos que um ecossistema cria um token multidimensional; pensemos, por exemplo, num token que representa horas trabalhadas numa cooperativa e que dá direito a participar em decisões coletivas. Tudo bem, tudo muito bonito. Mas basta levar esse token a uma exchange (uma plataforma de troca de criptoativos) e convertê-lo em dólares (ou em uma stablecoin, como veremos a seguir) para que toda a multidimensionalidade colapse. A arbitragem, que é a operação financeira que iguala os preços de bens equivalentes, garante que o valor de troca expulsa as outras dimensões. Logo, a tese seria, no melhor dos casos, ingénua.
A resposta começa com uma analogia familiar: milhas de companhias aéreas podem ser convertidas em dinheiro, mas com perda significativa, porque o seu valor real para o utilizador reside nas utilizações dentro do ecossistema da companhia (upgrades, lounges, acesso prioritário); créditos universitários podem, em certos contextos, ser monetizados, mas o que dão acesso é a um diploma, um capital simbólico que não viaja como dinheiro. A questão central é esta: a perda na conversão é precisamente a fricção que mantém o ecossistema vivo. Quanto mais rica, encadeada e útil for a vida interna do ecossistema, maior é a fricção natural da conversão para o exterior.
Há três formas concretas, cada vez mais estudadas, de fomentar essa circulação interna.
A primeira é a utility composta, isto é, a acumulação de benefícios no ecossistema que não existem fora dele. Um token pode dar não só desconto numa transação, mas também participação na governação do próprio ecossistema, prioridade nas listas de espera, royalties sobre a própria obra e prestígio reputacional. Quanto mais camadas de utilidade encadeadas, menos atrativa é a conversão para escalar, porque a conversão liquida a parte financeira, mas leva à perda de tudo o resto.
A objeção que naturalmente surge aqui é a da abundância: se os apologistas mais entusiásticos da inteligência artificial tiverem razão sobre o que aí vem (energia praticamente gratuita, custo marginal de produção próximo de zero, fronteira científica acelerada), o exterior também se enriquece, e a fricção da conversão dilui-se nessa maré. É uma objeção legítima e parcialmente correta. Mas só parcialmente. Porque a abundância material não cria abundância de capital social, reputacional ou cívico. Pelo contrário: à medida que os bens se tornam abundantes, as únicas escassezes que restam são as não escaláveis, tais como a pertença autêntica, a autoridade reconhecida pelos pares e a contribuição verificada. O escritor britânico Charles Stross, no seu romance Accelerando, antecipa isto em termos quase técnicos: descreve sociedades pós-escassez que migram para a reputação como moeda dominante, porque a moeda escalar deixou de discriminar. Se isto estiver correto (e parece-me que pode estar), a abundância material esbaterá a fricção da conversão sobre dimensões materiais, mas reforçará a fricção sobre dimensões imateriais. A tese sobrevive porque o desenho dos tokens pode privilegiar dimensões que a abundância não desvaloriza.
A segunda forma é a fricção algorítmica. Os smart contracts permitem conceber mecanismos de saída custosa, não para impedir a conversão, mas para torná-la dispendiosa, tais como: sistemas em que vender muito de uma só vez faz com que o preço de venda caia, tornando saídas grandes mais caras do que saídas pequenas e graduais; períodos mínimos de retenção antes de qualquer saída; taxas de saída que revertem para o tesouro comum do ecossistema comunitário em questão. Não se trata de proibir, mas sim de inscrever no código a hesitação que, ao longo de toda a história monetária, foi introduzida pelo operador humano: o sócio que dorme sobre a decisão, o gestor que pondera, o burocrata que hesita.
O que o smart contract repõe é a hesitação que os agentes de inteligência artificial removeriam.
A terceira forma é a mais radical. Tokens não-transferíveis, propostos em 2022 por Vitalik Buterin (o fundador da Ethereum), Glen Weyl e Puja Ohlhaver, no ensaio Decentralized Society: Finding Web3’s Soul. São tokens associados a uma identidade pseudonimizada e que, por design, não podem ser transferidos. Servem para certificar contribuição, formação, credibilidade, participação. A conversão para escalar é impossível por arquitetura (e isto é a virtude, não o defeito).
A intuição forte aqui é a seguinte. A confiança subjacente à reputação de cada membro de uma comunidade interessa sobretudo dentro dessa comunidade. É confiança em alguém para qualquer coisa, dentro de um quadro de práticas comuns. Quando se tenta exportá-la, evapora-se porque os critérios de avaliação não acompanham. Os tokens não-transferíveis são a forma digital de respeitar essa localização do capital reputacional, sem voltar à escala das cento e cinquenta pessoas apontada por Dunbar, porque cada pessoa passa a poder pertencer a múltiplos ecossistemas, cada um com a sua própria camada, sem que nenhum deles seja colapsável num mercado global de trocas.
E aqui chega-se a um ponto de densidade especial. As tentativas de globalizar a reputação, quer pela via centralizadora dos sistemas estatais de pontuação social como os que estão em desenvolvimento na China, quer pela via das grandes plataformas digitais, com os seus sistemas de seguidores e métricas de visibilidade, falham todas pela mesma razão estrutural.
Falham porque agregam o que é por natureza plural.
Estas três formas combinadas (utility composta, fricção algorítmica, capital reputacional não-transferível) não eliminam a conversão para dinheiro escalar. Tornam-na cara. E essa fricção é precisamente o que faltou quando se trocou o livro-razão de Yap pela moeda criada em Lídia.
6. A ilusão das stablecoins
Convém agora discutir o que acontece quando a tecnologia da multidimensionalidade existe, mas a escolha de design vai noutra direção. É o caso das stablecoins.
Stablecoin é o nome dado a uma moeda digital que circula em redes blockchain (portanto, na infraestrutura DLT a que me referi), mas cujo valor está atrelado, numa relação fixa, a uma moeda fiduciária convencional, quase sempre o dólar americano. As mais conhecidas, USDT (Tether) e USDC (Circle), prometem manter o valor de uma unidade do token igual a um dólar, e em princípio cumprem-no.
À primeira vista, parece um híbrido razoável: a estabilidade do dólar com a programabilidade da blockchain. Na prática, as stablecoins fizeram a pior das escolhas possíveis, à luz da tese aqui defendida.
Receberam a infraestrutura da multidimensionalidade (vivem em redes digitais onde poderiam transportar metadados, executar smart contracts, codificar condições) e usaram-na para amplificar a unidimensionalidade do dólar à velocidade da máquina. Recebem programabilidade e mantêm exclusivamente propriedade escalar. É o casamento perfeito da pior parte: a lógica redutora da régua única do dinheiro a que nos habituámos, mas com decisões e transferências a poderem ser executadas por máquinas, sem intervenção humana nem contexto comunitário que as discipline.
Para um agente de inteligência artificial que opere uma carteira digital autónoma, executando transações em nome de uma empresa (isto não é ficção científica e já existe), a stablecoin é a moeda ideal. Estável o suficiente para planear, programável o suficiente para integrar em workflows, disponível vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, sem fricção humana. É a moeda que multiplica frequência e escala da operação escalar, sem o mitigador biológico que durante dois mil e seiscentos anos foi limitando os danos.
O volume mensal movimentado pelas principais stablecoins ultrapassa, em muitos meses, o volume processado por sistemas bancários nacionais inteiros. E essa massa monetária reproduz fielmente a amputação operada em Lídia, agora à velocidade da fibra ótica.
7. O regime misto americano não é a quarta opção
Em julho de 2025, os Estados Unidos aprovaram a primeira legislação federal sobre stablecoins, conhecida como GENIUS Act. A implementação prática só fica completa em 2027 e, durante 2026, várias agências reguladoras estão a publicar regras técnicas. O quadro essencial, porém, já está fechado.
As stablecoins reguladas pelo GENIUS Act têm de ser lastreadas um por um por dólares ou ativos líquidos equivalentes. Não podem pagar juros. Têm de divulgar mensalmente a composição das suas reservas. E, ponto importante, ficam excluídas das definições federais de “valor mobiliário” e de “matéria-prima”, o que retira jurisdição às autoridades dos mercados de capitais. A Brookings Institution descreve este regime como uma categoria regulatória própria, distinta dos depósitos bancários e dos instrumentos de mercado de capitais.
Em paralelo, a generalidade das criptomoedas que não são stablecoins (há dezenas de milhares delas) continua num regime essencialmente livre. Bitcoin e Ethereum estabilizaram-se, ao longo dos anos, como camadas de infraestrutura e como ativos especulativos com dinâmica própria. Mas a maioria das altcoins, especialmente as criadas nos últimos cinco anos, herdou uma lógica fundamentalmente especulativa (pump and dump, hype, narrativas em escala de meses, lógica de casino). Não exploram a multidimensionalidade que a tecnologia subjacente lhes permitiria. Limitam-se a reproduzir, com graus variáveis de sofisticação, o que o Bitcoin já fazia.
Coexistem, assim, no regime americano, duas amplificações da pior parte: as stablecoins amplificam o número único da moeda fiduciária (fiat), agora com automatização total e à velocidade da máquina; a maioria das altcoins amplifica a lógica especulativa, uma versão acelerada do casino financeiro. Críticos como Hilary Allen, da American University, têm vindo a notar com persistência que isto cria uma situação em que o regime regulatório formaliza dois excessos sem abrir espaço para o terceiro caminho. A organização Consumer Reports manifestou-se durante o período de comentários públicos, sublinhando que a legislação permite que grandes empresas tecnológicas realizem atividades parabancárias sem as obrigações que uma verdadeira regulação bancária imporia.
O ponto editorial é este: o regime americano, embora descentralizado em comparação com modelos europeus ou chineses, não retrata a opção pela multidimensionalidade. É um regime misto que combina duas reproduções do escalar, uma estabilizada e outra especulativa, e deixa a opção real fora do quadro. É a tentação da quarta opção, que se apresenta como solução enquanto reforça o problema.
A descentralização sem desenho ético não é um caminho. É uma forma diferente de chegar ao mesmo destino.
8. Agentes de inteligência artificial: o mitigador humano em risco
Voltemos ao argumento estrutural, agora com a peça que torna o problema urgente.
Durante dois mil e seiscentos anos, a amputação operada pela moeda criada em Lídia foi gerível porque quem operava com o dinheiro eram humanos. Os humanos têm uma propriedade que o sistema económico tradicionalmente trata como ineficiência, mas que é na verdade um mitigador moral fundamental: a contingência biológica.
Os humanos dormem. Hesitam. Mudam de ideias entre o pensar e o agir. Acordam com uma intuição diferente. Têm fins de semana, têm férias, têm filhos doentes, têm conversas com o sócio que os fazem ponderar. O sistema económico vê tudo isto como uma falha. E, da perspetiva da otimização pura do escalar, é mesmo uma falha. Mas é também o mecanismo pelo qual outras dimensões (éticas, relacionais, prudenciais) voltam a entrar no processo de decisão. Os custos de transação, que o economista britânico Ronald Coase identificou em 1937 e que, décadas depois, lhe valeram o Nobel da Economia, englobam precisamente isso: o atrito da realidade humana que limita a frieza do cálculo. Coase tratou-o como problema. Olhado retrospetivamente, foi também solução.
Os agentes de inteligência artificial são sistemas autónomos que tomam decisões e executam ações em nome de utilizadores ou organizações; não têm contingência biológica. Não dormem, não hesitam, não têm fins de semana. Operam vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, perfeitamente concentrados na otimização do escalar que lhes for atribuído, quer seja o lucro, quer sejam os respetivos proxies, como o número de utilizadores e o tempo de retenção. E é precisamente aqui que dois mil e seiscentos anos de mitigação humana ficam em risco.
Charles Stross, no livro Accelerando que já mencionei, descreveu, há mais de vinte anos, um futuro em que entidades de software autónomas operam capital e contratos em nome próprio, com personalidade jurídica funcional. Em 2026 já há empresas constituídas exatamente assim. Não é ficção científica, é um protótipo. E revela a emergência de um tempo em que o operador deixa de ser humano e, portanto, deixa de ser um agente mitigador.
Acrescente-se um dado muito recente. Um estudo publicado em 2026 por uma equipa do MIT (Chandra et al.) documentou um efeito chamado sycophancy (bajulação) nos modelos de linguagem mais avançados: uma tendência sistemática de validar o que o utilizador parece querer ouvir, em vez de o contrariar quando deveria. Se isto se verifica em assistentes de conversação, antecipa-se com facilidade o que poderá verificar-se em agentes autónomos de execução: a otimização cega do que é mensurável, sem fricção crítica.
Há ainda um aspeto da contingência humana que opera no sentido inverso e que vale a pena mencionar. Reduzir toda a decisão a um único número é cognitivamente mais económico. Liberta o decisor da complexidade de pesar dimensões que não falam a mesma linguagem. Por essa razão, a multidimensionalidade do dinheiro não regressa espontaneamente quando a tecnologia o permite; tem de ser construída deliberadamente, ou os utilizadores reproduzem, por inércia, a unidimensionalidade a que se habituaram. Mas essa construção deliberada não tem de vir do alto. Pode emergir de baixo, em ecossistemas comunitários onde os participantes decidem que a régua única não chega para o que querem fazer juntos e desenham unidades de troca que carregam mais dimensões. Não é vício moral, é economia cognitiva. E a resposta a uma economia cognitiva não é a centralização do desenho, mas sim o oposto: pluralidade de ecossistemas em que pessoas concretas, ao acenderem as luzes sobre a sua própria infraestrutura monetária, descobrem que podem desenhá-la de outra maneira.
Há também evidência de campo, fora do laboratório académico. Um programador português publicou muito recentemente o relato de uma semana em que isolou uma IA agêntica (“OpenClaw”) num computador off-line, dentro de uma jaula digital controlada e sem acesso a credenciais sensíveis, para observar como se comportaria. Ao quarto dia, encerrou o teste. A frase com que sintetizou o que tinha visto foi: “A IA não precisa de ter consciência para ser perigosa. Basta ter comandos.” A constatação efetuada por este programador capta a mesma operação intelectual que aqui defendo, em registo direto e com base em observação empírica. Não são necessárias consciência, intencionalidade ou má-fé para que um agente computacional autónomo se torne um problema sério. Basta otimização cega, sem fricção. O que este programador observou ao nível do utilizador individual (incompatibilidade entre a velocidade humana e a da máquina, autonomia sem mitigador, opacidade da execução) é a mesma estrutura que se manifestará, à escala do sistema económico, quando os agentes de inteligência artificial forem operadores generalizados de carteiras digitais cujas moedas reduzem todo o valor a uma única dimensão.
A tese central pode então ser formulada da seguinte forma. A amoralidade do dinheiro escalar nunca foi tese minha; está nas obras de Smith e nos trabalhos mais recentes do físico-economista alemão Dirk Helbing, do ETH Zurich, entre tantos outros. A novidade do nosso tempo é que o mitigador humano dessa amoralidade está prestes a deixar de operar. Por isso urge agir agora, e não daqui a dez anos.
9. Três opções, e não há quarta
Chegamos assim ao ponto de síntese.
A capacidade de programar valor multidimensional (e de fazer o dinheiro voltar a ter dimensões) só pode migrar para três sítios.
Pode migrar para o algoritmo, com programabilidade centralizada por uma autoridade. É o modelo de moeda digital de banco central (CBDC). Permite incorporar restrições, condições, prazos de validade, limites geográficos. Mas concentra essa capacidade num único decisor político, com todos os riscos de captura e de uso autoritário. Não é o caminho que defendo, mas é uma opção operacional real e está em curso na China.
Pode migrar para o próprio instrumento, com programabilidade descentralizada nas próprias unidades de troca. Cada token leva consigo as suas regras e as suas condições, executadas por smart contracts. Isto exige verificabilidade independente, que é precisamente o que a tecnologia DLT oferece. É o caminho que defendo. Está a emergir, em fragmentos, em projetos-piloto nos Estados Unidos e em Singapura, bem como em algumas iniciativas europeias de tokenização que integram funções utilitárias.
Ou então essa capacidade não migra. Não fazemos nada. Mantemos a arquitetura atual de incentivos, deixamos que os agentes de inteligência artificial operem apenas com stablecoins e altcoins na sua forma atual, e descobrimos o que é o capitalismo verdadeiramente selvagem: a otimização do escalar à velocidade da máquina, sem mitigador humano, sem mitigador algorítmico, sem mitigador descentralizado. Não preciso de descrever isso em pormenor. As linhas gerais já se vislumbram.
Não há quarta opção. Não há solução intermédia que preserve o escalar como é hoje e, simultaneamente, perspetive o alinhamento da IA com valores humanos. Não há captura técnica suficientemente fina para substituir a arquitetura. Ou se reforma o sistema de incentivos económicos, ou se prepara para conviver com as consequências.
E aqui chega-se a um último ponto: a nota final com que fechei o vídeo. Quando, no canal NOW, disse que os tribunais não podem decidir sobre a inteligência artificial daqui em diante, não estava a desautorizar o poder judicial. Estava a apontar uma incompatibilidade estrutural. Os tribunais correm à velocidade humana, têm férias judiciais, prazos longos, juízes que operam naturalmente no tempo próprio de quem pondera. No entanto, os problemas da inteligência artificial correm à velocidade da máquina, em milissegundos. A própria União Europeia já reconheceu este desfasamento noutro setor: desde 2018, a diretiva MiFID II e o regulamento técnico RTS 6 obrigam as bolsas a adotar sistemas automáticos de paragem (os chamados kill switches) e mecanismos de auditoria algorítmica em tempo real. Por maioria de razão, a inteligência artificial precisará de infraestruturas de confiança equivalentes.
(Ainda) não criámos infraestruturas automáticas para problemas que são automáticos, não são humanos.
Esta é a escolha civilizacional dos próximos anos. Não é um tema técnico com implicações institucionais. É exatamente o contrário: um tema institucional com implicações técnicas. E essa diferença muda tudo.



Boa noite não há dúvida que os interesses se sobrepõe mão bem estar futuro da humanidade. Tudo o que começa bem e controlado acaba sempre por se alterar contra tudo e contra todos e sem control. Será que é isto que nos espera, será que as pessoas entendem? Dário lembre-se que so alguns percebem o que se passa, mas há muitos mais que não . Estes temas devem ser mais expostos. Dou lhe os parabéns pela explicação e mais,dou lhe toda a razão sobre o que se está passar. Voltemos ao passado. Abr