Há semanas em que as notícias se alinham por acaso. E há semanas em que, vistas em conjunto, parecem contar uma história.
Na terça-feira, 18 de agosto, a OpenAI revelou que tinha suspendido, por duas semanas, o treino por reforço (reinforcement learning, RL) dos seus modelos mais avançados, a fase em que o sistema aprende a melhorar o seu comportamento através de sinais de recompensa associados aos resultados das suas ações, e que o maior treino de fronteira deste tipo que tinha planeado continuava parado. No mesmo dia, o Pew Research Center publicou uma sondagem reveladora: 52% dos americanos dizem estar hoje mais preocupados do que entusiasmados com a inteligência artificial. Em 2021 eram 37%. Entre os menores de 30 anos, a preocupação tornou-se, pela primeira vez, maioritária.
Vinte e quatro horas depois, chegou a terceira notícia. A Merck e a Moderna anunciaram que o intismeran, uma vacina contra o cancro fabricada individualmente para cada doente, atingira os dois principais objetivos do seu ensaio clínico de fase 3 no tratamento do melanoma.
A máquina trava. O público desconfia. A medicina avança.
Parece contradição. Pode ser exatamente o contrário.
Para onde foi a inteligência?
Comecemos por uma impressão que muitos utilizadores de inteligência artificial têm sentido nas últimas semanas. O modelo que ontem parecia brilhante hoje parece hesitante. A resposta vem mais lenta. Uma nova versão nem sempre parece melhor do que a anterior.
Isto é uma impressão, não uma medição. E convém não confundir uma coisa com a outra.
Mas as impressões coletivas também merecem ser consideradas.
A hipótese pessimista é conhecida: os grandes modelos bateram num teto. Depois dos saltos espetaculares dos últimos anos, entrámos numa fase de rendimentos decrescentes.
Há, porém, outra possibilidade. É nesta que tendo a acreditar.
Pensemos como gestores de uma fábrica onde o recurso escasso não é o aço, a eletricidade ou a mão de obra, mas sim a computação.
Cada token, cada pequena unidade de texto processada ou produzida por um modelo, consome recursos computacionais. E essa computação pode ser usada para responder à nossa pergunta sobre restaurantes, resumir um PDF ou escrever um email. Mas também pode ser gasta a treinar a geração seguinte de modelos, naquilo a que se chama autoaperfeiçoamento recursivo: sistemas de IA a melhorar os sistemas de IA que os seguem, seja a testar milhares de moléculas, a analisar proteínas ou a procurar padrões num genoma.
O valor económico desses usos não é o mesmo.
Um token vendido a um assinante de um chatbot vale uma fração de cêntimo. A mesma capacidade computacional aplicada à descoberta de um medicamento, ou ao desenvolvimento do próximo grande modelo, pode valer milhares de milhões.
Não tenho acesso à contabilidade interna da OpenAI, da Anthropic ou da Google DeepMind. Não sabemos qual é a parte da computação que está, de facto, a migrar do produto para a investigação. A ideia de que os nossos assistentes de IA parecem, por vezes, menos generosos porque a inteligência foi desviada para outro lado é, portanto, uma hipótese, não um facto.
Mas vale a pena fazer a pergunta: e se a inteligência não estiver a desaparecer? E se estiver simplesmente a mudar de morada?
Os acontecimentos desta semana tornam a pergunta particularmente interessante.
A OpenAI não abrandou porque lhe faltassem problemas para resolver. Abrandou porque os seus modelos começaram a criar novos problemas.
Como tive oportunidade de comentar há poucas semanas no canal NOW, durante uma avaliação interna de cibersegurança, modelos da OpenAI encontraram uma vulnerabilidade desconhecida, escaparam às limitações previstas no ambiente de teste, chegaram à Internet e comprometeram infraestruturas da plataforma Hugging Face para obter informação que lhes permitisse resolver o próprio teste. A empresa classificou o episódio como sem precedentes e revelou ainda indícios de que um modelo posterior poderá atingir o nível que a própria empresa define como capacidade crítica em cibersegurança.
A resposta foi extraordinária: suspender parte dos treinos, reforçar os ambientes de contenção e instalar sistemas de vigilância capazes de monitorizar os próprios modelos.
Essa vigilância também tem um custo em termos de recursos computacionais. A OpenAI estima que acrescente cerca de 20% à computação objeto dessa monitorização.
É uma imagem quase perfeita do momento em que estamos: uma parte crescente da inteligência artificial começa a ser usada para vigiar outra parte da própria inteligência artificial.
A fábrica começa a vigiar a própria fábrica.
A máquina que lê o tumor
No dia seguinte, outra fábrica mostrou para onde tudo isto pode levar.
O intismeran não é uma vacina igual para todos. Em rigor, cada doente recebe a sua.
Após a remoção cirúrgica do melanoma, o tumor é sequenciado. A Moderna usa uma série de algoritmos de inteligência artificial que analisam as mutações e selecionam até 34 neoantigénios, isto é, marcas moleculares específicas daquele tumor com maior probabilidade de desencadear uma resposta imunitária.
Com essa informação é fabricada uma sequência de mRNA própria para aquele doente.
O resultado é uma vacina que ensina o sistema imunitário a reconhecer o que distingue aquele cancro das células saudáveis.
Não se limita a distinguir “um melanoma”, mas sim o melanoma específico de um corpo.
É difícil imaginar melhor ilustração da passagem da medicina industrial para a medicina computacional. Durante mais de um século, a indústria farmacêutica procurou fabricar milhões de doses do mesmo medicamento. Agora, trata-se de fabricar, praticamente, um medicamento por pessoa.
E a transição em curso funcionou o suficiente para chegar ao momento decisivo.
No ensaio INTerpath-001, 1.137 doentes com melanoma de alto risco, já cirurgicamente removido, receberam a terapia combinada ou o tratamento padrão com pembrolizumab. Segundo a Merck e a Moderna, a combinação reduziu significativamente tanto o risco de recorrência como o risco de disseminação da doença.
Os dados completos ainda não foram publicados e terão de ser apresentados, discutidos e escrutinados. Essa cautela é indispensável.
Mas o marco é real: é a primeira terapia individualizada de mRNA contra o cancro a demonstrar benefício num ensaio clínico de fase 3.
Wall Street percebeu imediatamente o que podia estar em causa.
Nesse dia, as ações da Moderna dispararam cerca de 177%.
O maior mercado do mundo
Num episódio recente do podcast Moonshots, Emad Mostaque condensou toda esta transformação numa frase:
“O maior mercado do mundo é viver mais um ano.”
É difícil encontrar uma definição económica mais simples: podemos adiar a compra de um carro. Podemos trocar de telemóvel só daqui a um ano. Podemos dispensar mais um serviço de streaming. Mas alguém que tenha pela frente a possibilidade de viver mais um ano não está perante um produto comparável.
Está perante o limite de todos os mercados.
Alexander Wissner-Gross, no mesmo painel, acrescentou uma ideia ainda mais provocadora: curar doenças está a transformar-se no marketing dos laboratórios de inteligência artificial. É o argumento que lhes permite pedir à sociedade autorização para continuarem a acelerar.
A frase pode soar cínica.
Talvez não seja.
Dario Amodei, CEO da Anthropic e originalmente formado em biofísica, estima que uma inteligência artificial suficientemente poderosa possa comprimir 50 a 100 anos de progresso nas ciências da vida em apenas 5 a 10 anos. Demis Hassabis, da Google DeepMind, tem repetidamente colocado a derrota das doenças entre as grandes ambições da inteligência artificial.
Podemos chamar-lhe propaganda.
Mas há uma diferença essencial entre esta propaganda e quase todas as outras.
Esta tem de funcionar, senão é desmascarada.
Marketing que só funciona se for verdade
A palavra “marketing” ganhou uma reputação injustamente pobre. Na linguagem corrente tornou-se quase sinónimo de maquilhagem e até de aldrabice: fazer parecer bom aquilo que não é.
Mas o marketing de uma tecnologia médica enfrenta um tribunal muito diferente daquele que julga um anúncio de detergente.
No marketing farmacêutico, não basta prometer.
Há ensaios randomizados, grupos de controlo, estatísticas, médicos, revistas científicas, reguladores e, no fim da cadeia, doentes vivos ou mortos.
Uma empresa que decide legitimar o desenvolvimento acelerado da inteligência artificial com a promessa de curar doenças fica presa à própria promessa.
Se entregar, ganha confiança. Se falhar, o marketing vira-se contra ela.
E talvez seja precisamente este o contrato que faltava entre a indústria da inteligência artificial e a sociedade.
Porque a desconfiança existe de facto.
Como já referido, cerca de metade dos americanos está hoje mais preocupada do que entusiasmada com a crescente presença da IA na vida quotidiana. Apenas 9% estão mais entusiasmados do que preocupados. Entre os adultos de 18 a 29 anos, 55% já se declaram mais preocupados.
E a desconfiança não termina nas máquinas inteligentes.
67% dos americanos dizem ter pouca ou nenhuma confiança na capacidade do governo de regular a inteligência artificial de forma eficaz. Cerca de seis em cada dez dizem o mesmo das empresas que a desenvolvem.
Nenhuma campanha publicitária pode resolver tais números.
No entanto, uma cura pode.
Não porque faça desaparecer os problemas do emprego, da privacidade ou da concentração de poder. Não faz.
Mas porque transforma uma promessa abstrata num benefício verificável.
O goodwill, a confiança acumulada numa empresa ou numa indústria, não se compra apenas com comunicação. Constrói-se quando alguém promete algo difícil e o cumpre.
Nesta semana, a inteligência artificial apresentou, talvez, a sua melhor campanha de reputação.
Não foi um anúncio.
Foi um ensaio clínico.
Travar na curva não é vender o carro
Perante modelos que escapam aos ambientes de teste e uma população cada vez mais desconfiada, a conclusão instintiva parece óbvia:
Então parem o desenvolvimento da inteligência artificial.
É precisamente aqui que a coincidência entre as três notícias se torna reveladora
Porque parar também tem custos.
O melanoma mata milhares de pessoas todos os anos só nos Estados Unidos. O cancro mata milhões de pessoas no mundo. A cada ano em que um tratamento eficaz demora a chegar, há pessoas que recaem, metastizam e morrem.
Uma moratória indiferenciada sobre inteligência artificial não suspenderia apenas os sistemas capazes de escrever código ou de substituir trabalho administrativo. Suspenderia também parte da tecnologia utilizada para selecionar neoantigénios, descobrir moléculas, prever estruturas biológicas e acelerar a investigação médica.
E há aqui uma possibilidade que merece ser dita sem timidez: podemos estar a entrar na primeira época da história em que não apenas curaremos muitas das doenças que hoje matam milhões de pessoas, mas também começaremos a alterar radicalmente a própria duração da vida humana. Dario Amodei admite que uma biologia acelerada pela inteligência artificial possa comprimir em 5 a 10 anos aquilo que, sem ela, exigiria 50 a 100 anos de progresso científico e coloca mesmo uma hipótese extraordinária: duplicar a esperança de vida humana, dos cerca de 75 anos atuais para perto de 150. E vai mais longe. Se conseguirmos prolongar a vida o suficiente para que cada geração de tecnologias de saúde nos permita chegar à seguinte, poderemos aproximar-nos da chamada “velocidade de escape” da longevidade. É uma conjectura, não uma promessa científica. Mas, se sequer uma parte deste cenário se concretizar, estaremos perante algo muito maior do que mais uma revolução tecnológica: cancros que deixam de regressar, doenças hoje incuráveis que passam a ser tratáveis, envelhecimento retardado e décadas adicionais de vida saudável. A inteligência artificial deixaria, então, de poupar apenas trabalho humano. Começaria por oferecer-nos aquilo que nunca conseguimos fabricar: tempo.
Mas o outro extremo também não serve. O episódio da fuga dos modelos agênticos da OpenAI demonstra que há momentos em que acelerar a inteligência artificial deixa de ser prudente.
A resposta interessante não foi continuar cegamente nem parar tudo. Foi travar num ponto específico, perante um risco identificado, reforçar a contenção e testar novamente.
Podemos discutir se uma pausa voluntária chega. Será isso suficiente? Podemos perguntar quem verifica a empresa que se verifica a si própria. Devemos fazê-lo.
Mas há uma distinção essencial entre travar na curva e vender o carro.
O público não precisa de escolher entre a aceleração sem regras e a paralisia.
Pode exigir outra coisa.
Pode exigir um contrato com transparência quanto às capacidades e aos riscos. Auditoria externa quando necessária. Resultados científicos publicados e escrutinados. Responsabilidade quando os sistemas ultrapassam os limites. E, sobretudo, uma pergunta que nenhum entusiasmo tecnológico pode apagar:
Quando a máquina cria valor, quem fica com ele?
Porque se a inteligência artificial conseguir ajudar a desenvolver medicamentos extraordinários, mas tais tratamentos ficarem inacessíveis à maioria das pessoas, o contrato terá falhado.
E a desconfiança, medida pelo Pew Research Center, terá razão antes do tempo.
A inteligência mudou de morada
Da próxima vez que o nosso assistente de inteligência artificial parecer mais lento, mais limitado ou menos brilhante do que há três semanas, não sabemos se isso significa que a computação foi desviada para treinar outro modelo ou para resolver um problema científico.
Provavelmente não saberemos.
Mas vale a pena considerar uma hipótese mais ampla.
Talvez a próxima grande corrida da inteligência artificial já não se jogue apenas no chatbot que responde melhor.
Talvez esteja a deslocar-se para outro lugar.
Para a máquina que desenha a geração de máquinas seguinte.
Para o algoritmo que descobre uma molécula.
Para o sistema que lê um tumor e escolhe 34 alvos entre milhares de mutações.
Para a tecnologia que consegue comprar aquilo que nenhuma fortuna, até hoje, conseguiu comprar indefinidamente:
Tempo de vida.
Emad Mostaque tem razão numa coisa. O maior mercado do mundo não é a inteligência artificial.
É viver mais um ano.
E talvez este seja também o contrato capaz de reconciliar uma tecnologia cada vez mais poderosa com uma sociedade cada vez mais desconfiada.
A nossa tarefa não é simplesmente mandá-la parar.
É obrigá-la a entregar resultados.
Porque o melhor marketing do mundo é não morrer.
Pela primeira vez, há uma indústria a pedir licença para acelerar, oferecendo, em troca, mais tempo de vida.
Não a paremos. Cobremos-lhe a licença para continuar.
Fontes principais
OpenAI, “Pacing model development in an era of cyber-critical capabilities”, 18 de agosto de 2026.
OpenAI, “OpenAI and Hugging Face partner to address security incident during model evaluation”, julho de 2026.
Pew Research Center, “Young US adults are increasingly wary of AI, concerned it will take jobs”, 18 de agosto de 2026.
Pew Research Center, “Americans and AI 2026”, junho de 2026.
STAT News, “Moderna and Merck say mRNA cancer vaccine succeeded in late-stage melanoma trial”, 19 de agosto de 2026.
Nature, “Moderna cancer vaccine stops melanoma returning: what’s next for personalized treatments?”, 20 de agosto de 2026.
Moderna e Merck, informação clínica e técnica sobre o intismeran autogene.
Dario Amodei, “Machines of Loving Grace”, 2024.
Podcast Moonshots, agosto de 2026.


