Salário, propriedade e poder na era da inteligência artificial
A IA multiplica o valor de cada hora de trabalho. Mas quem será dono desse multiplicador?
Num debate recente em que participei no canal NOW, a conversa começou pela pergunta habitual: a inteligência artificial vai criar ou destruir empregos?
Há dados que sustentam ambas as previsões, aparentemente contraditórias. Em julho, a Microsoft anunciou a eliminação de cerca de 4.800 postos de trabalho. A empresa afirmou que essas funções não estavam a ser diretamente substituídas por inteligência artificial, embora tenha enquadrado a reorganização nas mudanças do setor e no impacto crescente desta tecnologia.
Por essa altura, a Organização Internacional do Trabalho estimou que quase 80 milhões de trabalhadores nos 11 países da ASEAN exercem profissões com algum grau de exposição potencial à IA generativa, sem que haja, até agora, sinais de perdas de emprego em grande escala.
As duas coisas podem ser verdade. A IA pode eliminar determinadas funções, criar outras e transformar praticamente todas elas. Mas o número total de empregos, por si só, pouco nos diz sobre a questão decisiva: quem ficará com a riqueza adicional produzida?
O multiplicador tem dono
A grande viragem civilizacional provocada pela inteligência artificial não se limita à automatização de tarefas. Consiste na multiplicação do valor que cada hora humana produz quando combinada com máquinas inteligentes.
Um arquiteto pode realizar em horas uma parte do trabalho que antes exigia semanas. Um programador pode desenvolver sozinho aquilo que anteriormente mobilizava uma equipa. Um advogado pode analisar milhares de documentos numa fração do tempo. Um médico pode dispor de sistemas capazes de sintetizar instantaneamente uma quantidade de informação clínica impossível de processar à velocidade humana.
Mas esse multiplicador não paira no ar. Tem proprietário.
Alguém possui os modelos, os chips, os centros de dados, a energia, as redes, os dados e as plataformas através das quais o novo valor é produzido.
Mesmo os modelos abertos não resolvem esta questão. O software pode ser aberto, auditável e adaptável, mas a computação necessária para executar os sistemas mais poderosos continua a exigir infraestruturas escassas e dispendiosas. O centro do poder pode simplesmente descer um piso: do software para o hardware, dos pesos do modelo para os centros de dados.
O caso recente da DeepSeek ilustra-o bem. A empresa disponibiliza abertamente os pesos de vários dos seus modelos (a base que os faz funcionar), mas o seu fundador, Liang Wenfeng, viu a fortuna estimada pela Bloomberg subir para cerca de 36 mil milhões de dólares, sobretudo por deter perto de 80% da empresa. Sam Altman, pelo contrário, dirige a OpenAI sem possuir uma participação no seu capital; apesar de liderar uma empresa muito mais conhecida e valiosa, está longe da fortuna de Liang, e a riqueza que possui provém de outros investimentos. A diferença é simples: um dirige sem ser proprietário; o outro dirige e é proprietário. Abrir os pesos dos modelos não dissolveu a propriedade; apenas mostrou onde ela permanece.
Foi esta a questão de fundo que levei ao debate no canal NOW: o número de empregos não revela como a riqueza será distribuída, e nada garante que o aumento da produtividade se traduza proporcionalmente em salários.
Paulo Dimas, CEO do Center for Responsible AI, chegou ao mesmo ponto por outra via: está a ocorrer uma transferência de poder do trabalho para o capital, sobretudo para quem controla as “fábricas de inteligência artificial”.
O salário remunera o trabalho; a propriedade remunera o capital
Esta distinção é fundamental.
O salário remunera o trabalho. A propriedade remunera a participação no capital. Um título de propriedade confere ao seu titular o direito aos rendimentos provenientes de determinado ativo.
Durante grande parte da história industrial, o salário não tornou rica a maioria dos trabalhadores, mas proporcionou autonomia individual e familiar. Permitiu pagar as rendas ou as prestações da casa, educar os filhos, constituir poupança e tomar decisões sem depender permanentemente da vontade de terceiros.
É essa autonomia que a IA pode reduzir, mesmo que não haja desemprego em massa.
Uma pessoa pode conservar o emprego e, ainda assim, perder posição económica relativa. Isso acontecerá quando a sua produtividade crescer muito mais depressa do que o seu salário, ficando a diferença nas mãos de quem possui o multiplicador.
Quanto maior for a parcela do valor gerada pelo capital inteligente, menor será, em termos relativos, a participação de quem depende exclusivamente do salário.
Por isso, na era da IA, muitas pessoas precisarão das duas coisas: do rendimento do trabalho e do rendimento da propriedade.
Esta ideia acabou por se tornar um dos pontos de convergência do painel: “o salário remunera o trabalho; a propriedade remunera o capital”.
Da riqueza ao poder
A concentração económica não é apenas um problema de distribuição material. A riqueza converte-se em poder.
Permite financiar investigação, determinar prioridades, condicionar mercados, influenciar governos e decidir que sistemas chegam à sociedade. Quando essa riqueza é multiplicada pela inteligência artificial, a sua conversão em poder também se acelera.
A advocacia oferece um exemplo particularmente revelador. A pergunta não é apenas se as máquinas retirarão trabalho aos advogados. É também quem será proprietário dos sistemas que selecionam estratégias, interpretam jurisprudência, recomendam acordos e tornam economicamente viáveis determinadas causas.
Parafraseando Yuval Noah Harari, quem patrocinará as causas defendidas pelas máquinas inteligentes?
A pergunta aplica-se igualmente à medicina, ao jornalismo, à educação, à segurança, à administração pública e à produção científica. Quando as máquinas participam em decisões estruturantes, a sua propriedade deixa de ser uma questão meramente empresarial.
Passa a ser uma questão ética, política e constitucional.
Taxar depois pode já não chegar
A resposta habitual à concentração de riqueza é a tributação. O Estado cobra impostos e destina a receita a financiar prestações, serviços públicos e mecanismos redistributivos.
Mas o imposto dá uma prestação. Não dá propriedade.
A prestação depende de uma decisão política posterior, pode ser alterada e não confere ao cidadão qualquer participação no ativo que produz a riqueza.
Por isso, além da redistribuição, devemos começar a discutir mecanismos de pré-distribuição: regras que atuem sobre a forma como o mercado distribui rendimento e poder antes dos impostos e das prestações sociais.
Redistribuir significa repartir uma parte da riqueza depois de ela ter sido produzida e apropriada. Neste contexto, interessa-nos sobretudo uma forma de pré-distribuição: alargar, à partida, a participação na propriedade das infraestruturas que produzem a nova riqueza.
Não se trata de abolir o investimento privado nem de entregar os centros de dados à administração pública. Trata-se de desenhar modelos em que o Estado, as comunidades e os cidadãos possam deter participações, receber dividendos ou beneficiar de direitos económicos associados às infraestruturas que utilizam recursos coletivos.
A lição (e os limites) do Alasca
O Fundo Permanente do Alasca demonstra que uma sociedade pode converter a riqueza temporária de um recurso natural num ativo financeiro duradouro, gerido de forma profissional e independente, sem perder o seu caráter público.
O fundo foi criado por uma alteração à Constituição do Alasca, aprovada pelos eleitores em 1976, sob o impulso político do governador republicano Jay Hammond.
A primeira distribuição de dividendos ocorreu em 1982. Em 2025, foram pagos cerca de 619 milhões de dólares a aproximadamente 619 mil beneficiários, o que corresponde a 1.000 dólares por beneficiário. Os rendimentos do fundo asseguram atualmente mais de metade das receitas gerais não vinculadas daquele Estado.
A lição fundamental não é o valor anual do cheque. É a decisão política de transformar um recurso que se esgota num património que permanece.
No entanto, o modelo não resolve por completo a questão da propriedade. O cidadão recebe um dividendo, mas não detém uma ação individual do fundo que possa vender, transmitir ou deixar em herança. Além disso, a utilização dos rendimentos e o montante destinado ao dividendo continuam sujeitos a decisões políticas.
O Alasca é, portanto, uma inspiração, não um modelo acabado.
Uma arquitetura adequada à era da IA teria de ir mais longe: criar direitos juridicamente definidos, verificáveis, resistentes à manipulação discricionária e, quando o modelo o justificasse, transmissíveis entre gerações.
Segundo a Reuters, citando o Financial Times, a OpenAI propôs atribuir ao Governo norte-americano uma participação de 5% e sugeriu que outros grandes laboratórios de IA fizessem o mesmo, através de um mecanismo inspirado no Fundo Permanente do Alasca. A proposta mostra que a própria indústria passou a reconhecer a dimensão política da propriedade. Mas transferir participações para um poder central não garante, por si só, a existência de uma verdadeira partilha com os cidadãos.
A propriedade concentrada nas mãos de um governo também pode transformar-se em captura.
Ninguém protesta contra o dividendo que recebe
A expansão dos centros de dados já está a encontrar uma resistência política crescente.
Segundo um levantamento da Data Center Watch, só no primeiro trimestre de 2026, pelo menos 75 projetos nos Estados Unidos, avaliados em cerca de 130 mil milhões de dólares, foram bloqueados ou adiados. O número igualou, em apenas três meses, a escala registada ao longo de todo o ano anterior. As populações locais apontam custos energéticos, consumo de água, ruído, falta de transparência e insuficiência dos benefícios concedidos às comunidades.
As pessoas não são necessariamente contra a tecnologia. São contra suportar os custos sem participar nos benefícios.
Há, por isso, uma intuição política simples: ninguém protesta contra o dividendo que recebe.
Isto também interessa aos investidores. Uma comunidade que participa economicamente num projeto tem mais razões para aceitar a sua instalação, proteger a sua continuidade e exigir que seja bem gerido. A propriedade distribuída não é apenas uma questão de justiça social. Pode funcionar simultaneamente como licença social e como mecanismo de estabilidade do investimento.
Sines: ser sócio e não apenas senhorio
Portugal encontra-se numa posição singular.
A Start Campus anunciou um investimento de 8,5 mil milhões de euros para desenvolver, em Sines, um grande centro de dados até 2030. Posteriormente, a Microsoft anunciou um investimento de 10 mil milhões de dólares em infraestrutura de inteligência artificial no mesmo polo, em parceria com a Start Campus, a Nscale e a NVIDIA.
Sines beneficia da posição atlântica de Portugal, dos cabos submarinos, da disponibilidade energética, do território, das redes e de decisões públicas que reconheceram o interesse estratégico do projeto.
E as fases futuras não são uma hipótese abstrata. Em maio de 2026, a Nscale anunciou a expansão do acordo com a Microsoft e a Start Campus, prevendo instalar mais de 66 mil GPUs NVIDIA Rubin a partir do final de 2027 e realizar um investimento adicional de 695 milhões de euros: 230 milhões em infraestruturas partilhadas e 465 milhões num segundo edifício de 200 MW. Quando falamos das próximas fases, falamos de uma obra que ainda não está concluída e de decisões que ainda podem ser tomadas.
Nada disto significa alterar retroativamente contratos ou compromissos já assumidos. Significa pensar nas fases futuras e nos novos projetos.
Portugal não deve limitar-se a cobrar impostos, rendas, taxas ou contrapartidas. Deve estudar formas de converter parte do valor criado em património duradouro para o país e para os cidadãos.
Podem existir várias soluções: participações públicas, fundos nacionais ou regionais, royalties convertidos em ativos financeiros, unidades de participação atribuídas aos cidadãos ou modelos mistos de capital público, privado e comunitário.
A arquitetura concreta deve ser discutida com rigor. Mas o princípio pode ser formulado com simplicidade:
Não podemos ser apenas senhorios. Temos de ser sócios.
Fizemos de Sines um projeto de interesse nacional; falta transformar os portugueses em participantes económicos no projeto, e não apenas em interessados no seu sucesso.
Sines pode ser o nosso Alasca. Não se trata de copiar mecanicamente o seu fundo, mas de aplicar à inteligência artificial, por maioria de razão, a mesma pergunta que o Alasca aplicou ao petróleo: como converter uma vantagem territorial e um recurso estratégico numa propriedade que beneficie várias gerações?
Uma nova infraestrutura de confiança
A propriedade só existe verdadeiramente quando pode ser identificada, comprovada, auditada e defendida.
É aqui que a questão económica reencontra a ética e a governação digital.
Não basta prometer futuras distribuições. É necessário criar direitos ou títulos juridicamente definidos, regras transparentes e mecanismos que permitam a cada beneficiário verificar a existência do seu direito e acompanhar os rendimentos correspondentes.
Na prática, qualquer proposta de partilha da riqueza gerada pela inteligência artificial deveria responder a três perguntas simples. Existe um direito juridicamente exigível, e não apenas uma promessa de distribuição? Pode cada titular ou beneficiário verificá-lo sem depender da boa vontade de quem administra? A regra resiste a alterações silenciosas ou pode ser esvaziada por uma decisão discricionária? São três testes de robustez, não uma arquitetura completa. A arquitetura concreta, com as suas formas jurídicas e tecnológicas, exige uma discussão própria.
As tecnologias de registo distribuído e os contratos inteligentes podem ajudar a automatizar determinadas regras, preservar o histórico das transações e dificultar alterações ocultas. Mas não substituem o direito, os tribunais, o Estado ou a legitimidade democrática.
A tecnologia não cria, por si só, justiça. Pode, contudo, tornar verificável o que a lei e a democracia decidirem proteger.
A propriedade não é simplesmente aquilo que o poder nunca consegue retirar. Em circunstâncias extremas, o poder consegue retirar quase tudo. A propriedade é, sobretudo, aquilo que o poder não consegue retirar às escondidas, apagar sem deixar rasto ou confiscar sem ter de responder por isso.
Na Alemanha reunificada, por exemplo, a legislação adotou como princípio a restituição dos imóveis expropriados pelas autoridades da RDA entre 1949 e 1990, salvo exceções como aquisições de boa-fé ou impossibilidade material de devolução. O tema tem, para mim, uma ressonância particular: em 1989, quando trabalhava na Schering AG, estive em Berlim Leste, pouco antes da queda do Muro, e pude observar os sinais visíveis de décadas de profunda limitação da propriedade privada. Já as expropriações realizadas sob ocupação soviética entre 1945 e 1949 ficaram excluídas da restituição, exclusão confirmada pelo Tribunal Constitucional Federal. O contraste mostra a divisão de trabalho entre técnica e política: a memória documental permite formular e comprovar a reclamação; a democracia decide quais direitos reconhece e como os repara. O confisco pode vencer o dia. O registo pode vencer a década.
Enquanto a confiança tradicional dependeu, em grande medida, da qualidade das pessoas que ocupavam os cargos, a confiança moderna precisa de regras que continuem verificáveis mesmo quando essas pessoas falham.
Isso não enfraquece o Estado. Liberta-o de ter de ser o cofre exclusivo de todas as confianças.
A pergunta da era da IA
Regular a inteligência artificial é indispensável. Precisamos de sistemas seguros, responsáveis, explicáveis e sujeitos à lei.
Mas isso responde apenas à pergunta sobre como a inteligência artificial deve funcionar.
Falta responder a outra:
De quem é a máquina?
Uma sociedade pode construir inteligência artificial tecnicamente responsável e, simultaneamente, permitir que a sua propriedade e os seus benefícios se concentrem num número muito reduzido de organizações.
A regulação da IA e a distribuição da respetiva infraestrutura não são alternativas. São duas dimensões da mesma governação.
A grande pergunta da era da inteligência artificial não é apenas quem terá emprego. É quem será dono das máquinas que multiplicam o valor produzido pelo trabalho, pois quem controla esse multiplicador tende a concentrar também a riqueza e o poder.
E uma multiplicação de poder desta dimensão exige uma governação moderna, assente numa infraestrutura de confiança distribuída, verificável e protegida contra alterações arbitrárias.


