Se o capital produz mais com menos trabalho, como pode o trabalho garantir o seu quinhão?
Mesmo que a inteligência artificial não diminua o emprego, nada garante que os salários acompanhem a riqueza produzida.
A inteligência artificial não é apenas mais uma inovação tecnológica. É provavelmente a transformação económica, política e social mais importante do nosso tempo.
Levanta questões éticas porque começamos a delegar decisões com consequências reais a sistemas programados segundo valores que raramente discutimos. Questões políticas, porque surgem operadores digitais que atravessam fronteiras e desafiam as leis nacionais. E até questões existenciais: o que distingue o ser humano quando a inteligência deixa de ser uma capacidade exclusivamente nossa?
Mas há uma pergunta mais próxima da vida quotidiana:
Se uma parte crescente da riqueza passar a ser produzida por máquinas, como poderá a maioria das pessoas participar dessa riqueza?
Durante dois séculos, essa participação fez-se sobretudo através do trabalho.
Não porque o salário fosse uma porta de entrada para a riqueza. Nunca foi. Como é sabido, praticamente ninguém enriqueceu a trabalhar por conta de outrem.
O salário cumpria outra função: permitia participar na economia. Pagava a casa, criava os filhos, financiava a reforma e, quando possível, gerava alguma poupança e património.
Não garantia riqueza. Mas dava autonomia.
É esta ligação que a inteligência artificial pode enfraquecer.
Mais emprego não significa riqueza mais distribuída
A discussão sobre o futuro do trabalho divide-se entre duas previsões.
Uns antecipam desemprego tecnológico em grande escala. Outros defendem que a inteligência artificial aumentará a produtividade, impulsionará a economia e acabará por criar mais empregos do que destruirá.
É possível que os otimistas tenham razão.
Mas o número total de empregos não nos diz como o valor produzido será distribuído.
Uma economia pode gerar muito trabalho e, simultaneamente, concentrar riqueza. Pode haver mais trabalhadores, mas menos trabalho humano por cada euro produzido. Pode haver muitos salários, enquanto os maiores ganhos ficam nos modelos, nos chips, nos centros de dados e nas plataformas.
Pode até haver pleno emprego e concentração patrimonial sem precedentes.
No cenário pessimista, o salário desaparece.
No otimista, permanece, mas pode deixar de chegar.
Trabalha-se numa economia cada vez maior, possuindo uma parcela cada vez menor dela.
Também se diz que os trabalhadores terão de se adaptar. É verdade. Mas adaptar-se à inteligência artificial não é o mesmo que beneficiar economicamente dela.
Um profissional pode aprender a utilizar os novos sistemas, aumentar a produtividade e conservar o emprego sem receber uma parte proporcional do valor adicional que passou a gerar.
Um arquiteto poderá fazer em horas o que antes exigia semanas. Um programador poderá executar sozinho o trabalho de uma equipa.
Mas quem fica com o ganho?
O profissional? A empresa que o emprega? A plataforma que fornece o modelo? O proprietário da infraestrutura?
A grande transformação pode não ser o fim do trabalho, mas sim o rápido aumento do fosso entre a riqueza dos que trabalham com o capital e a dos que o detêm.
Trabalhar pode deixar de ser suficiente
Imagine-se uma economia em que a produção duplica, mas os salários aumentam apenas ligeiramente.
A diferença não desaparece. Fica nos ativos que permitiram produzir mais: software, dados, modelos, redes, máquinas e capacidade computacional.
Quem já possui esses ativos beneficia diretamente. Quem depende apenas do salário participa de forma muito mais limitada.
A inteligência artificial poderá tornar muitos produtos e serviços mais baratos. Isso será positivo. Mas preços baixos não substituem propriedade.
Uma pessoa pode ter acesso a entretenimento ilimitado, assistência digital permanente e serviços quase gratuitos e continuar sem qualquer participação nos sistemas que geram essa abundância.
Ela pode viver melhor como consumidora e tornar-se mais frágil como proprietária.
O risco não é apenas uma sociedade sem emprego. É uma sociedade com emprego, crescimento e abundância, mas na qual a maioria continua afastada dos ativos que a produzem.
Redistribuir depois pode não bastar
A resposta mais imediata será taxar o capital e devolver o rendimento às pessoas, através de prestações sociais, serviços públicos ou de um rendimento básico universal.
A redistribuição deverá continuar a ser necessária. Mas pode não chegar.
A economia algorítmica será mais móvel do que a economia industrial. Um agente de inteligência artificial pode operar em vários países, utilizar servidores noutra jurisdição e receber pagamentos através de redes globais.
Isso não torna a tributação impossível. Continuarão a existir empresas, acionistas, centros de dados, consumidores e acesso a mercados nacionais.
O problema mais profundo é outro: redistribuir rendimento depois de a propriedade se ter concentrado não altera necessariamente a estrutura que produziu essa concentração.
O cidadão recebe uma prestação, mas continua dependente de quem controla os meios de produção.
Continua sem propriedade.
Em vez de corrigir depois, distribuir antes
Existe outra possibilidade: a pré-distribuição.
Em vez de deixar que a nova infraestrutura produtiva fique concentrada e tentar corrigir o resultado mais tarde, distribuem-se participações nessa infraestrutura desde o início.
Não se trata apenas de dar rendimento.
Trata-se de dar propriedade.
Já existem precedentes. O Fundo Permanente do Alasca distribui aos residentes uma parte das receitas do petróleo. Também têm sido propostas dotações universais de capital atribuídas à nascença.
Na era da inteligência artificial, o mesmo princípio poderia abranger centros de dados, capacidade computacional, modelos, redes e conjuntos de dados.
Esses ativos poderiam ser divididos em pequenas participações, permitindo que milhões de cidadãos fossem coproprietários e recebessem uma parcela do valor criado.
Uma participação deste género poderia, no século XXI, cumprir uma função semelhante à que a casa própria, a poupança ou a pensão cumpriram para muitas famílias no século XX: dar segurança e permitir alguma participação no crescimento económico.
A tokenização não resolve tudo
É aqui que pode entrar em jogo a tokenização: a representação digital e fracionada de um ativo ou de um direito económico.
A infraestrutura da inteligência artificial poderia ser dividida em milhões de unidades digitais, registadas numa rede verificável. Cada cidadão receberia uma participação e teria direito a uma parcela do valor produzido.
Mas convém não confundir o instrumento com a solução.
A tokenização não distribui propriedade por si só. Apenas permite fracioná-la, registá-la e transmiti-la.
A verdadeira decisão é política:
Que ativos serão partilhados? Com quem? Com que direitos e segundo quais regras?
Também será necessário impedir que a distribuição inicial seja seguida de uma reconcentração imediata. Se os cidadãos venderem as participações por necessidade e os grandes proprietários as recomprarem, regressaremos rapidamente ao ponto de partida.
A tecnologia pode ajudar. Não substitui a governação.
Quem controla a torneira?
Há ainda uma diferença fundamental entre propriedade e dependência.
Se o Estado atribuir as participações, mas puder decidir, a cada momento, como e quando serão utilizadas, não estaremos perante verdadeira propriedade.
Estaremos perante uma licença revogável.
O teste é simples: o que aconteceria se um governo autoritário assumisse o controlo do sistema?
Se pudesse retirar participações, restringir compras ou premiar a obediência, o modelo estaria mal desenhado.
Podem existir regras claras, conhecidas e iguais para todos, por exemplo, um período mínimo de detenção para impedir uma venda imediata. O que não pode existir é o poder arbitrário de decidir, caso a caso, o que cada pessoa faz com o que é seu.
O Estado pode criar, regular e distribuir, mas não deve controlar permanentemente.
Por que razão aceitaria o capital tal distribuição prévia?
Resta uma pergunta: por que motivo os atuais proprietários da infraestrutura de IA aceitariam uma distribuição mais ampla da propriedade?
Porque o capital, mesmo automatizado, continua a precisar de tribunais, contratos, estabilidade social e instituições que protejam os seus direitos.
Uma empresa pode automatizar a produção. Não pode automatizar a legitimidade das instituições que garantem que os seus ativos lhe pertencem.
O capital pode precisar de menos trabalho para produzir. Mas continua a precisar dos cidadãos para legitimar o sistema que protege essa produção.
É aqui que pode surgir o grande acordo político das próximas décadas: a sociedade continua a proteger o capital, mas exige, em troca, uma distribuição mais ampla da propriedade.
Não por caridade, mas sim por interesse mútuo.
Os proprietários precisam de instituições estáveis. Os cidadãos precisam participar da riqueza gerada pelas novas máquinas inteligentes.
A verdadeira pergunta
A inteligência artificial poderá destruir empregos. Poderá também criar muitos outros. No entanto, nenhum destes cenários garante que a riqueza produzida será amplamente partilhada.
O verdadeiro risco não é apenas uma sociedade sem trabalho.
É uma sociedade com trabalho, crescimento e abundância, mas na qual a maioria permanece afastada da propriedade das máquinas que geram essa abundância.
Durante muito tempo, o salário permitiu à maioria participar na economia, ainda que de forma limitada e desigual.
Na era da inteligência artificial, essa participação não pode depender apenas do trabalho.
Quando a riqueza crescer muito mais depressa do que os salários, trabalhar poderá continuar a ser necessário, mas já não será suficiente.
A grande pergunta da era da inteligência artificial não é apenas quem terá emprego.
É quem será dono das máquinas que multiplicam o valor produzido.



