Imagine que tem dinheiro para fabricar ou comprar os chips mais avançados do mundo. Sem um lugar onde os ligar, tem uma fortuna parada em caixas.
É fácil esquecer este pormenor quando falamos de uma inteligência que parece viver na «nuvem». Mas acontece que a nuvem tem edifícios, cabos, arrefecimento e uma conta de eletricidade. Tem uma morada. E essa morada tem dono.
A administração Trump adotou recentemente a designação «superinteligência» nas comunicações do executivo federal sobre a inteligência artificial (IA). Independentemente de qualquer simpatia ou antipatia política, parece-me um nome mais feliz: «artificial» descreve a origem; «super» destaca capacidades que já ultrapassam as nossas. Não é preciso superar-nos em tudo para ter superpoderes.
Mas esses poderes precisam de um lugar onde funcionar. E é na propriedade desse lugar que os cidadãos também deviam poder entrar.
O que faz valer a morada
Imagine dois terrenos semelhantes. Num, pode instalar as máquinas e alimentá-las com a potência necessária. No outro, ainda tem de conseguir a ligação à rede, as autorizações e as obras necessárias para a viabilizar. O primeiro permite começar; o segundo obriga a esperar, sem garantia de quando poderá fazê-lo.
A diferença de valor está nessa possibilidade concreta de funcionar. É a isso que chamo MORADA: um local que reúne terreno, energia disponível, ligação à rede, comunicações e condições de arrefecimento (em Sines, usa-se a água do mar).
Um estudo de Stijn Van Nieuwerburgh, apresentado na Brookings, identifica o acesso a eletricidade fiável e barata como um dos principais entraves à expansão dos grandes centros de dados. As ligações e as autorizações podem levar anos. Quem já as tem dispõe de uma vantagem que não se resolve apenas encomendando mais máquinas.
Um centro de dados é, neste sentido, como uma casa com um recheio muito caro. Os chips envelhecem depressa: basta surgir uma geração mais eficiente para pressionar o valor da geração anterior. A morada pode continuar a acolher as sucessivas gerações.
O que os cidadãos já põem no negócio
Essa morada resulta de investimento, engenharia e trabalho. Mas depende também de decisões e de recursos coletivos: ordenamento do território, infraestruturas públicas, capacidade da rede e eventuais apoios ao projeto.
Nem tudo é oferecido: as empresas pagam pelos terrenos, pelas ligações e pela energia, além de impostos. Mas, se recebem da comunidade local mais valor do que aquele que pagam, devem dar em troca mais do que promessas de emprego e de receitas fiscais: uma participação dos residentes no empreendimento.
Essa participação deve ser negociada antes do investimento, com regras claras e avaliação transparente, para que todos saibam o que entregam e o que recebem.
A criação de emprego e os impostos são importantes. Mas a propriedade acrescenta uma ligação ao rendimento do negócio. O cidadão pode beneficiar da infraestrutura enquanto ela gerar valor, mesmo depois de substituídas as primeiras máquinas.
Ser sócio envolve risco. E ser dono do edifício não confere controlo automático sobre a IA. Mas uma participação com direitos de informação e de representação pode dar acesso aos ganhos e permitir que os cidadãos influenciem a gestão da infraestrutura. É essa participação que proponho.
Sines e Figueira da Foz
O Estado do Alasca transformou parte das receitas petrolíferas num fundo permanente que ajuda a financiar um dividendo para os residentes elegíveis. Uma riqueza ligada ao território passou a chegar diretamente às pessoas.
Podemos adaptar a ideia e acrescentar-lhe propriedade individual. O Estado negoceia uma participação dos cidadãos nos empreendimentos em contrapartida pelo valor público que ajuda a criar; essa participação pertence aos cidadãos, incluindo quem não tem dinheiro para comprar ações. Uma entidade comum pode reunir essas participações, com contas auditadas e representantes escolhidos pelos titulares.
As regras terão de assegurar a entrada das novas gerações e evitar que as participações acabem concentradas em poucas mãos. Distribuir a propriedade para depois a deixar reconcentrar seria uma vitória breve.
Portugal tem uma morada destas em Sines: acesso à rede elétrica, proximidade de ligações internacionais de dados e arrefecimento com água do mar. O projeto Sines 4.0 recebeu classificação de Projeto de Interesse Nacional.
Mais a norte, no litoral Centro, a Figueira da Foz procura também atrair centros de dados. Poderá tornar-se uma irmã de Sines nesta nova economia. E, onde os projetos ainda estão a ser desenhados, há oportunidade de negociar, desde o início, a participação dos cidadãos.
Nos novos projetos e nas futuras expansões, respeitando os compromissos existentes, podemos discutir se esse interesse nacional também deve conferir aos portugueses uma participação no negócio. Sines e a Figueira da Foz podem ser o nosso Alasca: outro recurso, a mesma ambição de fazer chegar às pessoas parte da riqueza associada ao território.
Dir-se-á que o bolo tem de crescer antes de ser dividido. Claro. A propriedade da padaria é que se negoceia antes de o bolo ir ao forno. Fatias, no fim; sócios, à entrada.
Enquanto discutimos o que a superinteligência fará por nós, a sua propriedade vai sendo decidida. A morada é uma parte concreta dessa discussão, sobre a qual podemos agir hoje.
Se ajudamos a dar-lhe valor, porque havemos de ficar à porta?
Fontes:
Estudo apresentado na Brookings
História do Alaska Permanent Fund
Características do campus de Sines
Classificação do projeto Sines 4.0 em 2021
Adoção da designação Super Intelligence pelo executivo federal americano em 29 de setembro de 2026


